Em 11 de outubro de 2026, Mato Grosso do Sul celebra 49 anos de sua criação, um marco que remonta à sanção da Lei Complementar nº 31 pelo então presidente Ernesto Geisel em 1977. Com Campo Grande definida como capital, o novo estado do Centro-Oeste foi oficialmente instalado em 1º de janeiro de 1979, desmembrando-se do antigo Mato Grosso. Quase meio século depois, a trajetória de Mato Grosso do Sul revela caminhos distintos em comparação com seu estado-mãe, com inversões em indicadores demográficos e econômicos, mas um notável avanço em desenvolvimento humano e mobilidade social.
A Divisão Histórica: Por Que Mato Grosso do Sul Foi Criado?
A criação de Mato Grosso do Sul não foi um processo simples, e a decisão de desmembrar o território foi tomada pelo governo militar sem consulta à população. Segundo a historiadora Marisa Bitar, os motivos por trás dessa imposição incluíam o impulso ao desenvolvimento regional e à ocupação territorial, o fortalecimento das fronteiras com Bolívia e Paraguai, e a intenção de manter uma melhor relação política com o partido da ditadura, a Arena, ampliando sua base de apoio. O professor Angelo Moraes complementa que, embora inicialmente ligada a questões fundiárias, a partir da metade do século XX, a criação do estado ganhou um caráter geopolítico predominante, visando fomentar o desenvolvimento econômico da região.
Os defensores da divisão apontavam para a perspectiva de maior desenvolvimento da região emancipada, alegando que o governo em Cuiabá não fornecia os investimentos necessários para o sul. Críticos, por outro lado, questionavam a falta de consulta popular e a natureza puramente política da decisão, sem o devido planejamento. A separação estabeleceu uma estrutura político-administrativa própria para Mato Grosso do Sul, com governo e órgãos estaduais voltados ao território, mas as transformações econômicas e sociais se consolidaram ao longo das décadas seguintes, dependendo de investimentos, infraestrutura e atividades econômicas.
Comparativo Inicial: MS à Frente em 1980
No início de sua jornada, Mato Grosso do Sul apresentava uma vantagem sobre seu vizinho. O Censo de 1980 registrou 1.401.151 habitantes em MS, superando os 1.169.812 de Mato Grosso em mais de 231 mil pessoas. No setor agrícola, a diferença era ainda mais marcante: naquele ano, Mato Grosso do Sul colheu 1,32 milhão de toneladas de soja, um volume 11 vezes maior que as 117 mil toneladas produzidas por Mato Grosso, conforme dados da Produção Agrícola Municipal do IBGE.
Comparativo de Desenvolvimento: MS vs. MT (1980-2026)
A Inversão do Cenário: Mato Grosso na Liderança Atual
Quase cinco décadas depois, o quadro se inverteu drasticamente. Pela estimativa do IBGE para 2026, Mato Grosso do Sul conta com 2.946.317 moradores, enquanto Mato Grosso alcança 3.950.330, uma diferença de cerca de 1 milhão de pessoas a favor do estado-mãe. Desde 1980, a população sul-mato-grossense cresceu 110%, enquanto a mato-grossense expandiu 238%. Além disso, Mato Grosso se dividiu em mais municípios, somando 142 contra os 79 de Mato Grosso do Sul.
Economia e Agronegócio: Onde Cada Estado se Destaca
A diferença também se reflete na economia. Em 2023, o Produto Interno Bruto (PIB) de Mato Grosso atingiu R$ 273 bilhões, posicionando-o como o 10º do país, com 2,49% da riqueza nacional. Mato Grosso do Sul, por sua vez, registrou R$ 184,4 bilhões, ocupando a 15ª posição, com 1,69% do PIB nacional. No PIB per capita, Mato Grosso aparece em 3º lugar, com R$ 74.620, enquanto Mato Grosso do Sul está em 6º, com R$ 66.885.
No agronegócio, a soja que era predominante no sul migrou para o norte. Na safra 2025/26, Mato Grosso colheu estimados 50,7 milhões de toneladas em 13,1 milhões de hectares, mais que o triplo dos 15,7 milhões de toneladas de Mato Grosso do Sul, plantados em 4,4 milhões de hectares. No rebanho bovino, Mato Grosso é o primeiro do país, com 31,6 milhões de cabeças em 2025, e Mato Grosso do Sul o quinto, com 17,9 milhões. Para entender melhor as dinâmicas do agronegócio na região, veja mais sobre a safra de soja em Mato Grosso e as questões do agronegócio em Mato Grosso.
Apesar da predominância do agronegócio, Mato Grosso do Sul tem diversificado sua economia, com destaque para o comércio, a indústria e o ecoturismo, especialmente em regiões como Bonito e a Serra da Bodoquena. O estado tem registrado um crescimento econômico quatro vezes superior à média nacional e atraiu R$ 81 bilhões em investimentos privados nos últimos anos.
Desenvolvimento Humano e Mercado de Trabalho: A Vantagem Sul-Mato-Grossense
Em termos de desenvolvimento humano, Mato Grosso do Sul se destaca. O Índice de Desenvolvimento Humano Municipal (IDHM), que combina renda, educação e saúde, foi de 0,742 em MS em 2021, o dado mais recente, contra 0,736 em Mato Grosso. Com isso, MS é o 9º do país e MT, o 11º. Embora os números mais recentes venham de uma série anual com outra metodologia, a vantagem sul-mato-grossense é evidente, tendo superado o vizinho em 2020 e 2021.
No mercado de trabalho, ambos os estados estão entre os melhores do país. No segundo trimestre de 2026, Mato Grosso apresentou uma desocupação de 2,2% e renda média de R$ 4.137, enquanto Mato Grosso do Sul registrou 2,7% de desocupação e renda média de R$ 3.840. No entanto, Mato Grosso do Sul leva a melhor na informalidade, com 29,2%, contra 34,1% em Mato Grosso. O estado também liderou o Atlas da Mobilidade Social de 2025, um indicador que aponta a possibilidade de as pessoas melhorarem suas condições de vida em relação às gerações anteriores.
O Crescimento da População Indígena em MS
Mato Grosso do Sul abriga 116.469 pessoas indígenas, a terceira maior população indígena do Brasil, segundo o Censo Demográfico de 2022. Essa presença é registrada em todos os 79 municípios do estado. Em 2022, aproximadamente 64% da população indígena sul-mato-grossense vivia em áreas rurais, enquanto cerca de 36% residia em áreas urbanas, refletindo a diversidade cultural e social do estado.
O Futuro do Centro-Oeste: Desafios e Oportunidades para Mato Grosso do Sul
Ao celebrar seus 49 anos, Mato Grosso do Sul reflete sobre um passado de transformações e um futuro promissor. O governador Eduardo Riedel afirmou que “Melhorar a vida das pessoas é o nosso principal objetivo” e destacou que o estado é líder em mobilidade social, significando que “o cidadão tem uma vida melhor que a de seu pai e que, no futuro, seu filho terá ainda mais oportunidades.”
A história da criação de Mato Grosso do Sul, portanto, precisa ser compreendida considerando tanto a mudança na organização política e administrativa quanto os acontecimentos posteriores que influenciaram o desenvolvimento regional, moldando a realidade atual do Centro-Oeste.