Cuiabá, MT – Em um cenário de crescente preocupação com a saúde financeira do agronegócio, a Associação dos Produtores de Soja e Milho de Mato Grosso (Aprosoja-MT), em conjunto com outras 16 associações estaduais e a Aprosoja Brasil, encaminhou nesta sexta-feira, 9 de outubro de 2026, uma carta aos candidatos à Presidência da República, Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL). O documento, enviado a apenas 16 dias do segundo turno das eleições, cobra medidas urgentes e estruturais para enfrentar o endividamento rural que assola produtores em todo o país, com forte impacto no Centro-Oeste.

A iniciativa da Aprosoja-MT e demais entidades visa pressionar os presidenciáveis a priorizar soluções que reduzam os riscos inerentes à atividade agrícola, indo além das tradicionais renegociações de dívidas. Para o agronegócio de Mato Grosso e da região Centro-Oeste, onde a produção de grãos é pilar da economia, a estabilidade financeira dos produtores é crucial para a continuidade do desenvolvimento.

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Qual a dimensão do endividamento rural no Brasil e no Centro-Oeste?

Apesar de o Brasil ter alcançado uma produção nacional de soja de 180,4 milhões de toneladas na safra 2025/2026, um volume recorde, grande parte dos agricultores enfrenta sérias dificuldades financeiras. Este paradoxo é resultado de uma combinação de fatores: altos custos de produção, perdas climáticas sucessivas e restrições de crédito. A situação é particularmente grave em estados como Mato Grosso, que lidera a produção nacional de grãos e onde a dependência do clima e das condições de mercado é acentuada.

Dados recentes reforçam a gravidade do cenário. A inadimplência no crédito rural atingiu 9,7% em agosto de 2026, um patamar preocupante. O volume de crédito considerado problemático, ou seja, com risco de não ser pago, chegou a expressivos R$ 205 bilhões. A carta da Aprosoja destaca que a combinação de juros elevados, compressão de margens, eventos climáticos, custos logísticos, volatilidade de preços e restrição de crédito tem ameaçado a permanência de muitas famílias na atividade. “Juros elevados, compressão de margens, eventos climáticos sucessivos, custos logísticos, volatilidade de preços e restrição de crédito atingiram, ao mesmo tempo, parcela relevante do setor. Para muitas famílias, a discussão já deixou de ser sobre rentabilidade e passou a ser sobre permanecer ou não na atividade”, afirma um trecho do documento.

Quais são as principais reivindicações dos produtores rurais?

As associações apresentaram uma série de reivindicações que buscam soluções de longo prazo para o setor. Entre as prioridades, destaca-se a garantia de recursos orçamentários plurianuais para a subvenção ao seguro agrícola. Essa medida é vista como essencial para proteger os produtores contra perdas decorrentes de eventos climáticos, como as enchentes históricas que devastaram o Rio Grande do Sul em 2024, e outros fatores adversos, que impactam diretamente a rentabilidade das safras no Centro-Oeste.

Na área tributária, as entidades defendem o diferimento do Imposto sobre Bens e Serviços (IBS) e da Contribuição sobre Bens e Serviços (CBS) para o elo adquirente nas operações realizadas pelos produtores rurais. A proposta visa preservar o capital de giro das propriedades e evitar o acúmulo de créditos tributários, um problema recorrente para o setor.

Outras demandas importantes incluem:

  • Ações contra a concentração de mercado no fornecimento de insumos agrícolas.
  • Medidas para ampliar o acesso dos produtores aos mercados, tanto internos quanto internacionais.
  • Priorização de investimentos em infraestrutura, como a viabilização da Ferrogrão e da Ferrovia de Integração Centro-Oeste (Fico), projetos cruciais para o escoamento da produção de grãos de Mato Grosso e Goiás.
  • Políticas de incentivo à armazenagem de grãos, fundamental para reduzir perdas e otimizar a comercialização.
  • Tratamento tributário equilibrado para os biocombustíveis, diante dos incentivos concedidos a veículos elétricos importados.
  • Atuação do governo federal contra barreiras comerciais internacionais que utilizam critérios subjetivos de sustentabilidade, reafirmando o compromisso com o Código Florestal.

O que Lula propõe para o agronegócio e o endividamento rural?

O governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva tem buscado ampliar o apoio ao setor agrícola, mesmo em regiões tradicionalmente conservadoras. Em 15 de julho de 2026, Lula assinou a Medida Provisória (MP) 1.376/2026, que cria linhas especiais de crédito para a renegociação de dívidas rurais e institui um fundo garantidor para operações afetadas por eventos climáticos adversos. Essa MP visa renegociar mais de R$ 100 bilhões em dívidas de produtores.

A medida autoriza a renegociação para produtores que comprovem perdas de, no mínimo, 30% da renda esperada em pelo menos duas safras entre 2019 e 2025. Os juros variam de 6% a 12% ao ano, com prazo de oito anos para pagar e dois anos de carência. O impacto fiscal estimado do programa deve ficar abaixo de R$ 4 bilhões. O governo também suspendeu os pagamentos de dívidas rurais elegíveis por 30 dias, com efeito retroativo a 14 de julho de 2026, para dar tempo aos produtores de negociar.

Anteriormente, em 5 de setembro de 2025, Lula já havia assinado uma MP de R$ 12 bilhões para a renegociação de dívidas rurais, beneficiando até 100 mil produtores, e sancionou uma lei que protege de cortes as verbas do seguro rural. O ministro da Fazenda, Dario Durigan, afirmou que o Banco do Brasil, tradicional financiador agrícola, está preparado para processar as operações de crédito.

Quais as críticas às propostas de Lula?

Apesar dos esforços, a Aprosoja-MT comunicou que, embora a MP 1.376/2026 represente um avanço, ela não resolve de forma definitiva o endividamento acumulado. Desafios como o pagamento dos juros durante o período de carência, os limites financeiros das linhas de renegociação e os critérios que restringem o acesso de parte dos produtores aos benefícios ainda persistem. Especialistas avaliam que a MP tem um “caráter eleitoreiro”, sendo uma tentativa de reconectar o presidente com o eleitor do agronegócio, especialmente em estados como Mato Grosso. As principais queixas dos produtores são a burocracia para comprovar as perdas e os juros, que são mais altos do que os previstos no projeto original do Senado. Juristas alertam que a renegociação pode apenas empurrar a crise para os próximos anos, sem solucionar a insolvência financeira de muitas famílias de agricultores.

O que Flávio Bolsonaro promete aos produtores rurais?

Flávio Bolsonaro (PL), que disputa o segundo turno com Lula, tem reafirmado seu compromisso com o agronegócio. Ele recebeu o apoio formal da Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA) em 8 de outubro de 2026, prometendo que, se eleito, a FPA será ouvida em todas as decisões relacionadas à agricultura, projetos de lei e pautas do setor. Esse apoio é significativo, dado o peso da FPA no Congresso e sua representatividade em estados como Mato Grosso e Goiás, onde o agronegócio é força política e econômica.

Entre os compromissos de Flávio Bolsonaro, destacam-se:

  • Crédito mais barato e fortalecimento do seguro rural.
  • Investimentos em infraestrutura, com atenção especial à Ferrogrão e Fico, que são vitais para o escoamento da produção do Centro-Oeste.
  • Ampliação da capacidade de armazenagem do país.
  • Redução da dependência de fertilizantes importados.
  • Atuação contra práticas de dumping nas importações do setor leiteiro.
  • Atenção especial à agricultura familiar e entrega de títulos fundiários.

Quais as observações sobre as propostas de Flávio Bolsonaro?

Os benefícios das propostas de Flávio Bolsonaro dependerão, em um eventual governo, de orçamento, regulamentação e aprovação do Congresso. Suas menções ao seguro rural são consideradas “muito superficiais” por alguns analistas. Um documento elaborado pela Associação Brasileira do Agronegócio (Abag), pela Confederação Nacional das Seguradoras (CNSeg) e pela Associação Nacional das Instituições de Crédito, Financiamento e Investimento (Acrefi) aponta “lacunas” ou imprecisões nos planos de governo de ambos os candidatos em temas centrais como fertilizantes, crédito e seguro rural. O Plano Safra 2025/26, apesar de ser o maior da história com R$ 516,2 bilhões, cobre apenas metade da demanda total por crédito, que ultrapassa R$ 1 trilhão por ano.

A pressão da Aprosoja-MT e das demais entidades reflete a urgência de um debate aprofundado sobre o futuro do agronegócio brasileiro, especialmente em um estado como Mato Grosso, onde a produção agrícola é a espinha dorsal da economia. As eleições de 2026 serão decisivas para definir os rumos das políticas que afetarão milhões de produtores e a segurança alimentar do país.