O Mato Grosso do Sul se prepara para um marco histórico em sua trajetória religiosa. No próximo dia 20 de outubro de 2026, a Arquidiocese Metropolitana de Campo Grande dará início formal ao Inquérito Diocesano da Causa de Beatificação do Padre João Crippa, reconhecendo-o como o primeiro "Servo de Deus" do estado. A solenidade, que ocorrerá na Paróquia São José, no Centro da capital, marca a primeira etapa oficial no caminho que pode levar o sacerdote salesiano à beatificação e, futuramente, à canonização pela Igreja Católica. O evento solene, aberto à comunidade, terá a presença de autoridades eclesiásticas de Roma e do Brasil, destacando a relevância da vida e do legado de Padre João Crippa para a região.
A designação de "Servo de Deus" é o título inicial concedido pela Igreja a um indivíduo cujo processo de canonização foi formalmente aberto, reconhecendo sua reputação de santidade e virtudes heroicas. Para Mato Grosso do Sul, este é um momento de grande significado, pois Padre João Crippa é o primeiro a receber tal reconhecimento, consolidando sua importância histórica e espiritual na identidade regional.
Quem foi Padre João Crippa e sua trajetória no Centro-Oeste?
Nascido em 10 de outubro de 1861, na cidade de Asso, na região da Lombardia, norte da Itália, João Crippa, filho de Pietro Crippa e Fiorina Bucconi, aproximou-se da congregação salesiana ainda jovem. Ele ingressou na vida salesiana e teve contato direto com o fundador da ordem. A missão salesiana, com foco na educação e formação de crianças e adolescentes, especialmente os mais pobres, moldou sua trajetória.
Sua jornada religiosa o levou à América do Sul entre 1888 e 1889. Após receber a veste religiosa no Uruguai em 1890, foi ordenado sacerdote em 17 de fevereiro de 1894. Poucos meses depois, em junho do mesmo ano, Padre Crippa iniciou suas atividades missionárias em Cuiabá, no então território de Mato Grosso. Em uma época em que o atual Mato Grosso do Sul ainda integrava o estado vizinho, o sacerdote salesiano percorreu extensas regiões. De acordo com a biografia preservada pelo Instituto Histórico e Geográfico de Mato Grosso do Sul (IHGMS), ele viajava a cavalo por grandes distâncias para atender comunidades que enfrentavam dificuldades de acesso à assistência religiosa e à educação.
Seu trabalho missionário alcançou localidades como Aquidauana e Miranda, onde participou ativamente da organização das primeiras atividades paroquiais. Posteriormente, Padre João Crippa concentrou sua atuação em Campo Grande, contribuindo significativamente para a expansão da presença salesiana na cidade e deixando um legado que se estende por décadas.
Qual o legado de Padre João Crippa para Campo Grande e a educação?
A atuação de Padre João Crippa em Campo Grande não se limitou às celebrações religiosas. O sacerdote salesiano se envolveu diretamente com iniciativas educacionais e sociais que foram cruciais para o desenvolvimento da cidade nas primeiras décadas do século XX. Entre suas contribuições mais notáveis está a mobilização de um grupo de mulheres para viabilizar a criação do Colégio Nossa Senhora Auxiliadora. Esta instituição, ligada à tradição salesiana, tornou-se uma referência na formação de estudantes da Capital, consolidando a educação como pilar de seu trabalho.
Além disso, Padre Crippa dedicou parte significativa de sua rotina ao atendimento de crianças em situação de vulnerabilidade social. Registros históricos indicam que ele mantinha atividades de alfabetização e catequese para meninos que frequentavam o Oratório São José, um espaço que reunia jovens e famílias da comunidade. O atendimento era contínuo: pela manhã e à tarde, crianças recebiam ensinamentos básicos e formação religiosa; à noite, o espaço acolhia adultos que não sabiam ler nem escrever. Essa iniciativa representava uma oportunidade vital de acesso ao conhecimento em um período em que a rede de ensino em Campo Grande era limitada e a cidade passava por um rápido processo de expansão urbana.
A presença de João Crippa na história da Capital também está intrinsecamente ligada à Igreja São José, um dos templos católicos mais tradicionais de Campo Grande. Em 1925, ele adquiriu os dois primeiros terrenos destinados à instalação do Oratório São José, conhecido popularmente como Capelinha. Com o crescimento do número de fiéis, o espaço revelou-se insuficiente. O padre, então, passou a defender a construção de uma igreja maior dedicada a São José. A pedra fundamental do templo foi lançada em 15 de maio de 1938, e as obras tiveram início em 1º de setembro de 1939. Embora tenha participado ativamente dos esforços para concretizar o projeto, Padre João Crippa faleceu em 1º de agosto de 1941, em Três Lagoas, aos 79 anos, antes de ver a igreja concluída. Seus restos mortais foram posteriormente depositados no interior do templo, onde sua memória continua preservada.
Por que a Rua Padre João Crippa é tão conhecida em Campo Grande?
A importância histórica e o impacto do sacerdote na vida da cidade levaram Campo Grande a eternizar seu nome em uma de suas vias mais conhecidas. A atual Rua Padre João Crippa, localizada na região central, teve diferentes denominações ao longo do desenvolvimento urbano. Inicialmente conhecida como Rua 15 de Agosto, passou a se chamar Rua da Constituição em 1947. Posteriormente, em 1951, recebeu o nome do religioso. Segundo a publicação histórica Arca, da Prefeitura de Campo Grande, a alteração foi oficializada pela Lei Municipal nº 234, de 25 de dezembro de 1951, como um reconhecimento formal à dedicação do salesiano à educação da juventude e à comunidade. A via passa em frente à Igreja São José, estabelecendo uma conexão geográfica que preserva a memória do sacerdote e uma de suas principais contribuições para a Capital. Assim, milhares de moradores e visitantes que circulam diariamente pelo Centro convivem com uma homenagem a um personagem da história local que agora tem sua trajetória examinada formalmente pela Igreja Católica.
Como funciona o processo de beatificação e canonização?
A abertura do inquérito diocesano para Padre João Crippa é um passo significativo, mas o caminho até uma possível canonização é longo e rigoroso, sem prazo definido. As normas oficiais do Vaticano, estabelecidas no documento "Sanctorum Mater", definem etapas claras. A primeira fase, a investigação diocesana, é responsável por reunir informações detalhadas sobre a vida do candidato, ouvir testemunhas, examinar documentos históricos e verificar se existe uma reputação de santidade reconhecida pela comunidade religiosa.
Concluída essa etapa, toda a documentação é encaminhada ao Dicastério das Causas dos Santos, um órgão da Santa Sé em Roma, responsável pela análise dos processos de beatificação e canonização. Para candidatos que não morreram como mártires, o reconhecimento das virtudes heroicas pode levar à declaração de "venerável". Em regra, para a beatificação, é necessário o reconhecimento de um milagre atribuído à intercessão do candidato. Para a canonização, um segundo milagre, ocorrido após a beatificação, é geralmente exigido. Os supostos milagres precisam passar por investigações específicas, que podem incluir avaliações científicas, médicas e teológicas, com o reconhecimento final dependendo da decisão do Papa. Até o momento, não foi localizada uma publicação oficial do Vaticano reconhecendo milagre atribuído a Padre Crippa ou anunciando sua beatificação. A abertura do inquérito diocesano é a etapa inicial da investigação. O Dr. Paolo Vilotta, postulador da Causa vindo de Roma, terá um papel crucial na condução dos aspectos jurídicos e canônicos do processo perante o Vaticano.
Qual a relação de Campo Grande com outros processos de santidade?
A possibilidade de reconhecimento de Padre João Crippa como santo surge pouco mais de um ano após Campo Grande ter entrado para a história da Igreja Católica com a canonização de Carlo Acutis. O jovem italiano, que se tornou santo em 7 de setembro de 2025, durante cerimônia presidida pelo Papa Francisco na Praça de São Pedro, no Vaticano, teve seu primeiro milagre reconhecido em Campo Grande, em 2013, a cura de uma criança. Esse episódio colocou a capital sul-mato-grossense em evidência internacional no processo de reconhecimento da santidade do jovem italiano.
A história de Padre João Crippa, no entanto, apresenta uma característica diferente. Enquanto Carlo Acutis teve um milagre reconhecido ocorrido na cidade, o sacerdote salesiano construiu parte importante de sua trajetória pessoal e religiosa em Campo Grande. Ele deixou contribuições duradouras para a educação, a assistência social e a formação de comunidades católicas, sendo um personagem intrínseco à história e ao desenvolvimento da capital de Mato Grosso do Sul.
Detalhes da cerimônia de abertura do inquérito diocesano
A sessão solene de abertura do Inquérito Diocesano da Causa de Beatificação do Padre João Crippa está marcada para 20 de outubro de 2026, uma terça-feira. O evento terá início às 18h00, na Paróquia São José, localizada na Rua Pedro Celestino, 1446, no Centro de Campo Grande. A sessão contará com a participação direta do Dr. Paolo Vilotta, Postulador da Causa vindo de Roma, Itália, responsável por conduzir os aspectos jurídicos e canônicos do processo perante o Vaticano.
Na sequência, às 19h00, será celebrada uma Santa Missa em Ação de Graças, presidida pelo Arcebispo Metropolitano de Campo Grande, Dom Dimas Lara Barbosa. A celebração litúrgica contará também com a concelebração de Dom André Alves dos Santos, OSB, Presidente da Academia Brasileira de Hagiologia, vindo da Arquidiocese de São Paulo. A escolha do local é simbólica, pois a Paróquia São José celebra 75 anos de história (1949–2024), e o evento coroa as festividades, reconhecendo o profundo impacto evangelizador, social e missionário deixado pelo sacerdote salesiano na região. O pároco da Paróquia São José, P. Paulo Roberto de Oliveira, expressou a importância do momento:
"O Servo de Deus Padre João Crippa será o primeiro Servo de Deus do nosso estado de Mato Grosso do Sul: o primeiro homem de coragem, de fé, um homem que testemunhou por tantos e tantos anos a Jesus Cristo. Temos aqui várias pessoas que agradecem a ele por tantos anos".A comunidade católica de Mato Grosso do Sul é convidada a participar deste marco histórico.