Cuiabá, MT – A definição do tamanho da safra de soja 2026/27 em Mato Grosso, principal motor da economia agrícola do Centro-Oeste, está diretamente ligada ao comportamento das chuvas de primavera e verão nos próximos meses. O Instituto Mato-grossense de Economia Agropecuária (Imea) manteve suas projeções iniciais para a colheita, estimando uma produção de 48,88 milhões de toneladas do grão em uma área de 13,05 milhões de hectares. No entanto, a entidade acendeu o sinal de alerta máximo para as condições climáticas, que podem forçar revisões futuras.
Apesar de o volume projetado manter Mato Grosso na vanguarda do agronegócio nacional, os números atuais já indicam um recuo na eficiência técnica. A produtividade média das lavouras está estimada em 62,44 sacas por hectare, patamar inferior aos resultados excepcionais das duas safras anteriores, quando o estado registrou médias consistentemente acima de 66 sacas por hectare. Este cenário de incerteza climática, somado a um custo direto de produção de aproximadamente 32 sacas por hectare, torna a produtividade um fator decisivo para a margem de lucro dos produtores mato-grossenses.
Qual é a projeção atual para a safra de soja 2026/27 em Mato Grosso?
As estimativas iniciais do Imea para a safra de soja 2026/27 em Mato Grosso apontam para uma produção de 48,88 milhões de toneladas. Este volume será cultivado em uma área total de 13,05 milhões de hectares, distribuídos pelas macrorregiões do estado. A projeção foi mantida inalterada nas últimas semanas, segundo o último relatório técnico da entidade, devido à estabilidade dos fundamentos de mercado.
Contudo, a produtividade média esperada de 62,44 sacas por hectare representa uma queda em relação aos ciclos recentes. Nas safras anteriores, os campos mato-grossenses alcançaram resultados notáveis, com médias históricas que superaram as 66 sacas por hectare. Essa diferença de rendimento, se confirmada, pode impactar significativamente a rentabilidade dos produtores, que já lidam com um custo direto de produção elevado, estimado em cerca de 32 sacas por hectare na propriedade.
Como o plantio da soja 2026/27 está progredindo no estado?
O plantio da oleaginosa em Mato Grosso teve um início atrasado, marcado pela irregularidade das primeiras chuvas e pela cautela dos produtores, que temiam interrupções nas precipitações após a semeadura. Até 5 de outubro de 2026, apenas 10,23% da área estimada para a safra 2026/27 havia sido semeada. Este avanço semanal de 6,36 pontos percentuais ainda estava 4,79 pontos percentuais abaixo do registrado no mesmo período da safra 2025/26.
No entanto, o ritmo ganhou força na primeira semana de outubro. Até 9 de outubro de 2026, o plantio já havia atingido 33,28% da área total, com um avanço expressivo de 23,04 pontos percentuais em apenas quatro dias. As regiões do Médio-Norte e Oeste de Mato Grosso apresentaram os maiores avanços, impulsionados por chuvas mais favoráveis. Em contraste, a falta de precipitações continua a limitar o ritmo de semeadura no Noroeste do estado, gerando preocupação entre os agricultores locais.
Quais os riscos climáticos para a safra de soja 2026/27?
A safra 2026/27 está sob a forte influência do fenômeno El Niño, que se espera ser intenso e com pico próximo ao fim do ano. Analistas do Imea alertam que “o volume acumulado e a continuidade das precipitações pluviométricas serão os fatores determinantes para confirmar o potencial produtivo desenhado ou subsidiar revisões forçadas e cortes nas estimativas futuras de novos levantamentos”.
As previsões meteorológicas de médio prazo são um grande gargalo, especialmente para produtores do Médio-Norte. O radar das consultorias agrícolas aponta para a incidência de massas de ar seco e a previsão de temperaturas severamente elevadas ao longo do mês de dezembro. Este período de forte calor coincide com a fase crítica de floração e enchimento de grãos das plantas. Caso ocorra combinado com veranicos (períodos de estiagem prolongada), as consequências podem ser graves: abortamento de vagens, redução do peso final do grão e, consequentemente, a necessidade de as *tradings* recalcularem os contratos de exportação, impondo descontos ao produtor.
O Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) e a Climatempo preveem que o El Niño acentuará o calor e expandirá a área de pouca chuva no centro-norte do país, incluindo Mato Grosso, com temperaturas acima da média e chuvas irregulares. O meteorologista do Inmet, Mozar de Araújo Salvador, explica que o El Niño deve influenciar as condições climáticas, com temperaturas podendo superar a média do período em grande parte do Brasil. No campo, os cenários são variados: produtores no norte de Mato Grosso relatam expectativas de produtividade de 80 sacas por hectare em áreas com boas chuvas, enquanto em localidades como Tabaporã, há lavouras com emergência irregular, plantio interrompido e a possibilidade de replantio devido à falta de umidade.
Qual o papel de Mato Grosso na produção agrícola nacional?
Mato Grosso consolida sua posição como o maior produtor nacional de grãos, respondendo por 32,1% de toda a produção brasileira, conforme dados do Levantamento Sistemático da Produção Agrícola (LSPA) divulgado em setembro pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). A estimativa nacional é de uma safra recorde de cerca de 353 milhões de toneladas, o maior volume da série histórica do IBGE.
Além da soja, Mato Grosso lidera a produção de milho, com uma estimativa de 57,1 milhões de toneladas, mais da metade de toda a produção nacional, que é de 141,8 milhões de toneladas. No que tange à soja, o estado manteve a liderança nacional com uma estimativa de 50,7 milhões de toneladas em 2026, representando um crescimento de 1% em relação ao ano anterior e consolidando 29% de toda a produção brasileira, segundo o IBGE e a Secretaria de Estado de Desenvolvimento Econômico (Sedec-MT). É importante notar que esta estimativa de 50,7 milhões de toneladas para 2026 se refere a um contexto mais amplo da produção anual, enquanto a projeção do Imea de 48,88 milhões de toneladas é específica para a safra 2026/27, que está em fase de plantio e sob avaliação climática.
Um destaque crescente é o gergelim, que se consolida como uma cultura de importância para a agricultura brasileira, especialmente no Cerrado. Mato Grosso lidera a produção nacional com uma estimativa de 212 mil toneladas, o equivalente a 59,7% de todo o gergelim produzido no país. A produção nacional da oleaginosa foi estimada em pouco mais de 356 mil toneladas, em uma área de 575 mil hectares. A expansão da cultura, estimulada pelo governo estadual, ocorre principalmente em regiões como o Araguaia, onde o gergelim tem se mostrado uma alternativa ao milho de segunda safra em locais com maior risco de estiagem antecipada. Cultivado após a colheita da soja, entre o fim de fevereiro e o início de março, o gergelim possui ciclo de aproximadamente 120 dias e tem um perfil fortemente exportador, com cerca de 99% da produção mato-grossense destinada ao mercado externo.
Para Linacis Vogel Lisboa, secretária adjunta de Agronegócio, Crédito e Energia da Sedec, a diversificação da produção acompanha as mudanças no cenário agrícola e as oportunidades que surgem para o produtor mato-grossense. “Manter Mato Grosso na liderança exige um trabalho permanente de parceria com o setor produtivo. O Estado tem atuado para fortalecer as cadeias que já são consolidadas, mas também para abrir espaço para novas culturas e novas oportunidades de mercado. O avanço do gergelim é um exemplo desse movimento de diversificação, que acontece sem perder de vista a força da soja, do milho e de outras culturas. É esse trabalho conjunto que permite ao Estado continuar crescendo e, ano após ano, ampliar seu protagonismo na produção agrícola brasileira”, afirmou ao portal O Bom da Notícia.