Em Anápolis, Goiás, a empresária Tânia Borges, proprietária da Academia Sérgio Borges, veio a público denunciar ter sido vítima de um calote da Entrepay, uma empresa de pagamentos que se encontra em liquidação extrajudicial e é investigada por supostas ligações com o grupo do Banco Master, de Daniel Vorcaro. A denúncia, publicada neste domingo, 11 de outubro de 2026, pelo Jornal Opção, joga luz sobre os riscos enfrentados por comerciantes que utilizam serviços de empresas financeiras sob escrutínio.
Tânia Borges cobra explicações sobre o paradeiro do dinheiro e espera que sua denúncia encoraje outros comerciantes na mesma situação a tornarem públicos seus prejuízos. A empresária, no entanto, assegura que o ocorrido não afetará o atendimento aos clientes de sua academia em Anápolis.
Qual o impacto para os comerciantes do Centro-Oeste?
A situação da Academia Sérgio Borges em Anápolis é um alerta para o impacto direto que grandes escândalos financeiros podem ter sobre pequenos e médios empresários na região Centro-Oeste. A interrupção dos pagamentos por parte de uma empresa de pagamentos como a Entrepay pode comprometer o fluxo de caixa e a saúde financeira de negócios locais, que dependem desses repasses para honrar seus compromissos.
Diante da interrupção dos pagamentos, a Academia Sérgio Borges recorreu à Justiça. Em agosto de 2026, o juiz concedeu uma decisão liminar favorável à empresa, reconhecendo o direito de receber os valores registrados como recebíveis e determinando o depósito judicial desses recursos, conforme relatado pelo advogado Samuel. Contudo, apesar da decisão judicial, a academia enfrenta dificuldades para localizar e citar formalmente a Entrepay. O advogado Samuel afirma que a empresa não responde a mensagens ou e-mails e que não foi possível encontrar um endereço para o cumprimento das medidas judiciais, o que dificulta a efetivação da liminar e o recebimento dos valores devidos.
Por que a Entrepay foi liquidada pelo Banco Central?
A Entrepay Instituição de Pagamento S.A. foi colocada em liquidação extrajudicial pelo Banco Central (BC) em 27 de março de 2026. A decisão também atingiu a Acqio Adquirência Instituição de Pagamento S.A. e a Octa Sociedade de Crédito Direto S.A., empresas que fazem parte do mesmo conglomerado. A liquidação foi motivada pelo comprometimento da situação econômico-financeira da Entrepay e por infrações às normas que disciplinam sua atividade. O BC apontou que a empresa acumulava prejuízos que sujeitavam a risco anormal seus credores. Como medida de segurança, o Banco Central informou que os bens dos controladores e ex-administradores das instituições liquidadas foram tornados indisponíveis. Antes da liquidação, lojistas que utilizavam os serviços da Entrepay já vinham reclamando sobre o não recebimento ou atraso anormal nos repasses das vendas feitas com as maquininhas de cartão, indicando problemas operacionais e financeiros prévios.
Qual a ligação da Entrepay com o escândalo do Banco Master?
Há fortes indícios de que a Entrepay, entre outras empresas, tinha ligação com uma das frentes de atuação do Banco Master, e essa conexão está sob investigação. Autoridades que investigam o "ecossistema do Banco Master" suspeitam que o ex-banqueiro Daniel Vorcaro atuava como "dono oculto" da Entrepay. O diretor da Entrepay, Antônio Carlos Freixo Júnior, conhecido como Mineiro, é apontado como um operador que usava a infraestrutura do grupo em benefício de Vorcaro. Mineiro foi alvo da Operação Compliance Zero e teve seu nome citado em investigações do Banco Master.
Apesar das suspeitas, o Grupo Entre, controlador das instituições ligadas à Entrepay que foram liquidadas, negou em nota a existência de qualquer sociedade ou participação oculta de Daniel Vorcaro, afirmando que não há "qualquer vínculo societário, de controle ou governança" entre Vorcaro e o conglomerado. A suspeita é que a relação de Vorcaro com a Entrepay repetia o modelo das ligações entre o Banco Master e a gestora Reag Investimentos, também investigadas pela Polícia Federal na Operação Compliance Zero.
O que se sabe sobre as investigações do Banco Master?
O "Escândalo do Banco Master" envolve investigações sobre supostas fraudes financeiras na instituição e as relações de seu controlador, Daniel Vorcaro, com o envolvimento de políticos e juízes brasileiros. O caso ganhou repercussão no final de 2025 com a deflagração da Operação Compliance Zero da Polícia Federal, a liquidação da instituição financeira pelo Banco Central e a prisão de Vorcaro em novembro de 2025. A Polícia Federal e o Banco Central investigam se Daniel Vorcaro estaria por trás da Entrepay. Para mais detalhes sobre o desenrolar do caso na esfera política, confira este artigo sobre o impasse no STF e este sobre a reunião na Suíça.
Daniel Vorcaro teria apresentado uma proposta de delação premiada à Procuradoria-Geral da República (PGR) com alegações sobre pagamentos e articulações políticas. No entanto, a Polícia Federal e a PGR negaram que Vorcaro tenha prestado depoimento ou entregue documentos com conteúdo sobre supostos repasses para um filme sobre o ex-presidente Lula, conforme noticiado pela revista "Veja". A defesa de Vorcaro também negou a existência de um anexo sobre o tema na proposta de colaboração premiada, que foi rejeitada.
Segundo reportagem da VEJA, Daniel Vorcaro teria afirmado em proposta de delação que intermediários políticos cobrariam 10% de propina para facilitar investimentos de fundos de pensão no banco, com uma captação pretendida de R$ 10 bilhões, o que poderia gerar R$ 1 bilhão em propinas. Vorcaro teria citado negociações envolvendo Previ, Petros, Postalis e a gestora Caixa Asset. Ele também teria afirmado ter pago aproximadamente R$ 30 milhões em espécie para financiar um documentário sobre Lula, além de recursos para o Instituto Lula. É importante ressaltar que a reportagem da VEJA não comprova a participação do presidente nem que esse dinheiro tenha saído dos fundos.
As alegações foram amplamente negadas. A Polícia Federal negou que Vorcaro tenha prestado depoimento ou entregue documentos com o conteúdo sobre os supostos repasses ao filme de Lula. O ex-presidente Lula nega ter solicitado ou recebido vantagens financeiras, e seus colaboradores Alexandre Padilha e Olavo Noleto também negam relação com o banqueiro. A campanha de Lula classificou a reportagem da Veja como uma "peça eleitoral irresponsável baseada em outra peça eleitoral: o suposto depoimento de Daniel Vorcaro, construído sobre acusações sem comprovação".
Em meio a esse cenário, advogados do grupo Prerrogativas apresentaram uma notícia de fato à Polícia Federal pedindo investigação urgente sobre uma possível articulação entre Daniel Vorcaro e pessoas ligadas à campanha de Flávio Bolsonaro para interferir no segundo turno da eleição presidencial e prejudicar as investigações do escândalo financeiro. O documento relata que um HD contendo depoimento atribuído a Vorcaro teria sido entregue a terceiros com acusações contra adversários políticos de Flávio, integrantes do governo Lula e ministros de Estado. Os advogados suspeitam que o material possa ser utilizado para atingir o presidente Lula às vésperas da votação, sem tempo suficiente para verificar as acusações ou apresentar respostas.