Goiás, um dos pilares da agropecuária brasileira, enfrenta um cenário desafiador em seu setor pecuário. O rebanho bovino de Goiás registrou uma queda de quase 2 milhões de cabeças de gado entre 2022 e 2025, marcando o terceiro ano consecutivo de retração no estado. A Pesquisa da Pecuária Municipal (PPM) de 2025, divulgada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) em setembro e outubro de 2026, revelou que o efetivo bovino goiano foi estimado em 22,5 milhões de cabeças no ano passado. Este número representa uma diminuição de 3,25% em comparação com as 23,2 milhões de cabeças registradas em 2024.

A sequência de quedas preocupa produtores e autoridades, já que a pecuária é um dos motores econômicos do estado. Em 2022, Goiás alcançou o recorde de 24,4 milhões de cabeças de gado. Em 2023, o número recuou para 23,7 milhões; em 2024, para 23,2 milhões; e agora, em 2025, para 22,5 milhões. A perda acumulada em apenas três anos atinge 1,9 milhão de animais, um volume significativo para a cadeia produtiva.

Qual a dimensão da queda do rebanho em Goiás e no Brasil?

A retração do rebanho bovino goiano é parte de um movimento mais amplo, embora com particularidades regionais. A queda de 3,25% entre 2024 e 2025 em Goiás é superior à média nacional, que foi de 1,66% no mesmo período. O efetivo bovino total no Brasil somou 234,3 milhões de cabeças em 2025, o menor patamar desde 2022, e a redução nacional é atribuída principalmente ao aumento do abate, especialmente de fêmeas, nos últimos quatro anos.

Apesar da diminuição, Goiás conseguiu manter sua posição de destaque no cenário nacional. O estado permaneceu como o terceiro maior detentor de rebanho bovino do país em 2025, respondendo por 9,6% do efetivo nacional. Ele fica atrás apenas de Mato Grosso, que lidera com 31,6 milhões de cabeças, e do Pará, com 25,6 milhões. Essa constância na posição, mesmo com a retração, demonstra a relevância histórica e estrutural da pecuária goiana.

No ranking dos municípios brasileiros com os maiores rebanhos, São Félix do Xingu (PA) liderou com 2,7 milhões de cabeças, seguido por Corumbá (MS), com 2,2 milhões, e Porto Velho (RO), com 1,7 milhão. Para o Centro-Oeste, a presença de Corumbá (MS) no segundo lugar nacional ressalta a importância da região para a pecuária brasileira, mesmo com as flutuações em estados como Goiás.

Quais fatores explicam a redução do rebanho bovino goiano?

A diminuição do rebanho bovino em Goiás é multifatorial, combinando aspectos econômicos, de mercado e de uso do solo. Marcelo Penha, especialista técnico do Instituto para Fortalecimento da Agropecuária de Goiás (Ifag), apontou que o ciclo pecuário de alta é um dos principais influenciadores. Segundo ele, a baixa no preço do bezerro nos últimos três anos levou muitos produtores a venderem suas matrizes para fazer caixa. Penha explicou:

"Por serem mais caras, eles vendem as matrizes e fazem uma certa melhoria do rebanho, com descarte de animais para melhorar a próxima cria."
Esse movimento, embora estratégico para a qualidade futura do rebanho, resulta na diminuição do número de matrizes e, consequentemente, do estoque total de animais.

Outro fator crucial é a expansão da agricultura. A crescente demanda por grãos e biocombustíveis tem impulsionado a conversão de pastagens em áreas para lavouras de soja e cana-de-açúcar. Esse fenômeno é particularmente notável nas regiões Sul e Oeste do estado, incluindo o Vale do Araguaia, onde terras antes dedicadas à pecuária são agora ocupadas por cultivos agrícolas. Essa mudança no uso da terra reduz a área disponível para a criação de gado, impactando diretamente o tamanho do rebanho.

A baixa rentabilidade também contribui para a saída de produtores da atividade pecuária. Penha destacou que pecuaristas com dificuldades em implementar tecnologia, obter capital de giro e realizar um manejo eficiente, e que consequentemente enfrentam baixa rentabilidade, optam por arrendar ou vender suas terras e abandonar a atividade. Essa descapitalização e a busca por maior lucratividade em outras culturas ou atividades têm um peso significativo na redução do número de animais.

Como a pecuária se distribui nos municípios goianos?

A concentração dos maiores rebanhos bovinos de Goiás permaneceu na região Norte do estado em 2025, um padrão histórico que reflete as características geográficas e econômicas da área. Nova Crixás se destacou como o principal município goiano, ocupando a 14ª posição nacional com um efetivo de 795,1 mil cabeças. Este município sozinho respondeu por 3,5% do rebanho bovino estadual em 2025.

Curiosamente, Nova Crixás apresentou um movimento contrário à tendência geral do estado, registrando um crescimento de 2,9% em seu efetivo entre 2024 e 2025. Esse dado sugere que, enquanto o estado como um todo encolhe, algumas regiões e municípios conseguem manter ou até expandir suas atividades pecuárias, possivelmente devido a investimentos específicos, melhores condições de mercado local ou menor pressão da agricultura.

Além de Nova Crixás, outros municípios do Norte goiano figuraram entre os principais rebanhos do estado. São Miguel do Araguaia, com 598 mil cabeças, alcançou a 31ª colocação nacional, e Porangatu, com 440 mil cabeças, ficou na 58ª posição no país. A força pecuária dessas cidades é vital para a economia local e regional.

O que a queda do rebanho significa para o Centro-Oeste?

A retração do rebanho bovino de Goiás tem implicações significativas não apenas para o estado, mas para toda a região Centro-Oeste. Goiás é um dos maiores produtores de carne e leite do Brasil, e a diminuição de seu efetivo pode impactar a oferta de produtos e os preços no mercado regional e nacional. Para os estados vizinhos, como o Distrito Federal, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, que compõem a área de cobertura do Voz do Centro-Oeste, essa queda pode significar mudanças nas dinâmicas de abastecimento e nos fluxos comerciais de gado e produtos derivados.

A expansão da agricultura, especialmente soja e cana-de-açúcar, em detrimento da pecuária, é uma tendência observada em diversas áreas do Centro-Oeste. Embora traga benefícios econômicos para o setor agrícola, essa mudança levanta questões sobre o equilíbrio entre as atividades e o futuro da pecuária extensiva na região. A busca por maior rentabilidade e a modernização do campo impulsionam essas transformações, forçando os pecuaristas a se adaptarem, seja intensificando a produção em áreas menores ou migrando para outras atividades.

É importante notar que, em contraste com a tendência geral anual do IBGE, a Agência Goiana de Defesa Agropecuária (Agrodefesa) registrou um leve avanço no rebanho no primeiro semestre de 2025, contabilizando 22.884.678 cabeças. Esse dado, baseado em declarações de produtores, foi superior às 22.737.550 cabeças da etapa anterior (novembro e dezembro de 2024), e foi interpretado pelo presidente da Agrodefesa, José Ricardo Caixeta Ramos, como um sinal da força da pecuária goiana. Contudo, a Pesquisa da Pecuária Municipal do IBGE, com metodologia e abrangência anuais, aponta a retração no balanço total do ano, indicando uma tendência de longo prazo que merece atenção.

O cenário atual exige que produtores, governo e entidades do setor avaliem estratégias para garantir a sustentabilidade da pecuária goiana. Isso inclui incentivos à adoção de tecnologias que aumentem a produtividade por área, programas de melhoramento genético e políticas que equilibrem a expansão agrícola com a manutenção de uma pecuária forte e rentável. A capacidade de adaptação e inovação será crucial para que Goiás continue a ser um protagonista na produção de alimentos no Brasil.