Goiás emergiu como um epicentro estratégico na corrida global por terras raras, minerais cruciais para tecnologias de ponta, como veículos elétricos, equipamentos de energia renovável e sistemas de defesa. Com projetos bilionários e um crescente interesse de empresas estrangeiras, o estado se consolida como um polo vital na diversificação do fornecimento desses recursos, atraindo investimentos significativos e atenção internacional. Hoje, domingo, 11 de outubro de 2026, a dinâmica em torno desses minerais no Centro-Oeste brasileiro é de grande impacto econômico e estratégico.
O Brasil, segundo dados do Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS), detém a segunda maior reserva de minerais críticos do mundo, atrás apenas da China. Contudo, a exploração desses recursos ainda é incipiente, dada a complexidade tecnológica exigida para sua extração e processamento. Goiás, por sua vez, destaca-se por abrigar algumas das maiores reservas e as operações mais avançadas do país.
Quais são os principais projetos de terras raras em Goiás?
O cenário goiano é marcado por vários empreendimentos de grande porte. Em Minaçu, no norte do estado, a mineradora Serra Verde opera a única unidade de processamento de terras raras pesadas da América Latina. Fundada pela Denham Capital, uma empresa de investimentos em novas energias dos EUA, a planta iniciou suas operações em 2024. Em 2025, a Serra Verde recebeu um financiamento de US$ 565 milhões do governo americano, um aporte que, segundo Thras Moraitis, CEO da empresa, "transformará nossa posição competitiva, permitindo a expansão da capacidade, a consolidação de um perfil mais baixo de custos operacionais e a melhoria da qualidade do produto".
Moraitis também informou em fevereiro de 2026 que o programa de otimização das operações da Serra Verde está "integralmente financiado" e que os trabalhos para expandir a produção para 6.500 toneladas de óxido total de terras raras até o final de 2027 "avançam dentro do orçamento e à frente do cronograma". A empresa produz Carbonato Misto de Terras Raras, não exportando minério bruto. O depósito de Minaçu é rico em disprósio (Dy), térbio (Tb), neodímio (Nd) e praseodímio (Pr), elementos cruciais para ímãs permanentes e setores como defesa, nuclear e aeroespacial.
Outro projeto relevante está em Nova Roma, no nordeste goiano, onde a Aclara Resources, uma empresa canadense, planeja investimentos de R$ 2,8 bilhões no processamento de argilas iônicas, com a expectativa de gerar 5.700 empregos. A Aclara inova com um modelo de extração sem barragens e com reciclagem total da água, e já mantém uma unidade experimental em Aparecida de Goiânia.
Em Iporá, a mineradora canadense Appia Rare Earths & Uranium Corp. prevê investimentos privados de R$ 550 milhões para a prospecção de 52 milhões de toneladas de terras raras. Antonio Vitor, representante da Appia no Brasil, declarou em maio de 2024 que o teor encontrado "está acima da média mundial para o tipo de depósito que é de argila iônica".
Recentemente, novas descobertas reforçaram o potencial do estado. Em fevereiro de 2026, a mineradora australiana Magnum Mining confirmou uma descoberta de terras raras do tipo argila de adsorção iônica no projeto Azimuth, em Goiás, o que fez suas ações dispararem na bolsa australiana. Já em outubro de 2026, a também australiana Alvo Minerals formalizou a aquisição do projeto Bluebush, onde identificou concentrações de disprósio e térbio, duas das terras raras mais valiosas, após 448 furos de sondagem.
Como o acordo entre Goiás e EUA impacta a exploração de minerais críticos?
Na semana passada, um memorando de entendimento foi assinado pelo governador de Goiás, Ronaldo Caiado (PSD), e por Gabriel Escobar, encarregado de negócios dos EUA, em uma cerimônia no Consulado dos EUA em São Paulo. O acordo visa aumentar o acesso de empresas americanas a minerais críticos e terras raras no estado, fundamentando-se em três pilares.
Primeiramente, será realizado um levantamento completo do potencial mineral de Goiás, em parceria com o governo americano. Em seguida, o estado terá prerrogativas para identificar áreas de interesse e formular políticas para a exploração desses minerais. O terceiro pilar foca em parcerias técnicas, buscando não apenas a extração, mas também o processamento dos minerais em solo goiano. "Junto com as universidades, [vamos] desenvolver em parceria com o governo americano as tecnologias. A separação desses minerais críticos é complexa. É uma técnica que os americanos têm e que nós ainda estamos em uma fase ainda muito rudimentar", disse Ronaldo Caiado após a assinatura.
Qual o volume de investimentos estrangeiros em terras raras no Brasil?
O interesse em Goiás reflete uma tendência mais ampla no Brasil. Um levantamento da Folha de S.Paulo, publicado em 10 de outubro de 2026, identificou pelo menos 18 empresas estrangeiras com processos minerários voltados à pesquisa ou exploração de terras raras no país. Esses empreendimentos representam mais de US$ 3,5 bilhões (cerca de R$ 17,5 bilhões) em recursos já aplicados e projeções de investimentos futuros. As companhias da Austrália lideram a presença no Brasil, com 11 das 18 mapeadas, seguidas por Canadá e Estados Unidos (três cada), e uma empresa constituída nas Ilhas Marshall.
Para a região Centro-Oeste, especialmente Goiás, esses investimentos significam um potencial de desenvolvimento econômico e tecnológico sem precedentes. Um estudo da Câmara Americana de Comércio para o Brasil (Amcham Brasil) projeta que os investimentos em terras raras em Goiás e Minas Gerais, estimados em US$ 2,39 bilhões, podem adicionar R$ 192,1 bilhões ao Produto Interno Bruto (PIB) do Brasil até 2050 e gerar 750 mil novos empregos. A concretização desses números dependerá da capacidade do estado e do país em criar um ambiente regulatório estável e atraente para o capital estrangeiro, ao mesmo tempo em que protege seus interesses estratégicos.
Existem preocupações sobre a soberania nacional na exploração de terras raras?
Apesar do entusiasmo com os investimentos, a crescente presença estrangeira e a estratégia dos EUA na região geraram "incômodo no governo brasileiro". O governo defende a atração de capital, mas busca estabelecer critérios para evitar a perda de controle sobre ativos estratégicos e garantir que o processamento dos minerais ocorra no país, agregando valor localmente.
Uma das situações que ilustra essa preocupação é a aquisição da mineradora Serra Verde pela empresa americana USA Rare Earth, em um acordo avaliado em cerca de US$ 2,8 bilhões (aproximadamente R$ 14 bilhões). Embora a conclusão da aquisição estivesse prevista para o 3º trimestre de 2026, outras fontes indicam que a USA Rare Earth concluiu a aquisição antes da sanção e entrada em vigor da nova lei de minerais críticos. O ponto do contrato que mais gerou críticas no governo seria a previsão de envio de 100% da produção inicial para os Estados Unidos.
Interlocutores do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) indicam que o governo federal estuda uma estratégia para rever o contrato de exploração entre as empresas em Goiás. O argumento é que as terras raras são patrimônio da União, e o negócio poderia ser revisto após a aprovação do projeto de lei, já que a empresa não teria direito adquirido de exploração desses recursos. No entanto, a aplicação dessas novas regras ao negócio da Serra Verde é questionável, pois a aquisição foi concluída antes da sanção e entrada em vigor da lei.
A Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos (PNMCE), sancionada pelo presidente Lula, busca justamente fortalecer a posição do Brasil. A política autoriza a criação de um fundo garantidor com participação da União de até R$ 2 bilhões e prevê até R$ 1 bilhão por ano em créditos fiscais entre 2030 e 2034 para atividades de processamento, transformação e recuperação de minerais. O Ministério de Minas e Energia (MME) afirmou que "tem mantido diálogo institucional com representantes das empresas envolvidas" e que os planos de industrialização no Brasil "evidencia[m] que os investidores internacionais já estão respondendo às premissas de agregação de valor local e soberania consolidadas pela nova Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos". A PNMCE também propõe a criação do Conselho Nacional para Industrialização de Minerais Críticos e Estratégicos (CIMCE), que seria responsável por homologar mudanças de controle societário em empresas titulares de direitos minerários de minerais críticos e estratégicos, visando maior controle sobre esses ativos estratégicos.