A Polícia Federal (PF) revelou, em novos relatórios encaminhados ao Supremo Tribunal Federal (STF), que a decisão de compra do Banco Master pelo Banco de Brasília (BRB) foi articulada em uma reunião secreta realizada em Zurique, na Suíça, em 23 de janeiro de 2025. O encontro, considerado o marco inicial das tratativas para a aquisição, teria contado com a presença de figuras proeminentes do cenário político e financeiro do Distrito Federal e do país: o então governador do DF, Ibaneis Rocha (MDB), o empresário Daniel Vorcaro, dono do Banco Master até sua liquidação, e Paulo Henrique Costa, que presidia o BRB na época. Uma quarta pessoa, identificada apenas como "Leonardo", também teria participado da reunião.

As investigações da Operação Compliance Zero, que já resultaram nas prisões de Paulo Henrique Costa e Daniel Vorcaro, apontam para uma complexa teia de negociações que envolvem acusações de gestão fraudulenta, interferência política direta e "captura institucional" do BRB, um banco público de grande relevância para a economia do Centro-Oeste. O BRB, enquanto instituição financeira do Distrito Federal, tem um papel crucial no desenvolvimento regional, e as revelações da PF levantam sérias questões sobre a governança e a lisura de suas operações.

▶ Quem paga os R$ 40,6 bilhões do Banco Master? · Numerium

Como a PF descobriu a reunião na Suíça e o que ela significa?

A descoberta do encontro em Zurique baseia-se em mensagens obtidas nos celulares de Paulo Henrique Costa e Daniel Vorcaro, que foram apreendidos durante a Operação Compliance Zero. Os relatórios da PF detalham a articulação para a reunião: em 20 de janeiro de 2025, Paulo Henrique Costa informou a Daniel Vorcaro que o governador Ibaneis Rocha havia solicitado o agendamento de um encontro. Três dias depois, em 23 de janeiro, Ibaneis, Vorcaro, Costa e "Leonardo" se encontraram na capital suíça, em um restaurante.

A importância desse encontro é sublinhada por uma troca de mensagens ocorrida apenas três dias depois, em 26 de janeiro. Vorcaro encaminhou a Paulo Henrique uma pergunta do jornalista Lauro Jardim, do jornal O Globo, questionando sobre uma possível sociedade entre BRB e Master. A resposta de Paulo Henrique, segundo a PF, demonstra preocupação com o vazamento da informação:

"Não ampliamos em nada o escopo das pessoas envolvidas no deal [na negociação]"
, disse o então presidente do BRB, acrescentando que não sabia se o governador ou "Léo" haviam se encontrado com alguém. Para os investigadores, essa conversa revela a tentativa de manter as tratativas em sigilo e a preocupação com a exposição pública de uma negociação sensível.

Qual foi o papel de Ibaneis Rocha, ex-governador do DF, no caso?

A Polícia Federal conclui que Ibaneis Rocha, na qualidade de acionista controlador do BRB, "não se limitou ao exercício regular de suas prerrogativas institucionais". Os relatórios apontam que o então governador atuou de forma direta em quatro frentes cruciais para a operação:

  • Validação de "decisões operacionais críticas";
  • Definição da estratégia de expansão do BRB;
  • Autorização dos montantes do aumento de capital;
  • Articulação com agentes privados envolvidos na operação.

A PF afirma que

"As comunicações demonstram que decisões estratégicas relevantes eram submetidas previamente à sua apreciação, antes mesmo de deliberação pelos órgãos formais de governança, evidenciando centralização decisória e interferência política direta na condução da instituição financeira pública."
Essa interferência, segundo a investigação, é indicativa de "captura institucional", onde a estrutura de decisão do banco teria sido alinhada a interesses específicos, em detrimento dos princípios de impessoalidade, moralidade e interesse público que deveriam reger uma instituição financeira pública como o BRB, que serve à população do Distrito Federal e da região.

A defesa de Ibaneis Rocha, por meio do advogado Antônio Carlos de Almeida Castro (Kakay), recebeu o relatório com "tranquilidade" e reiterou que o ex-governador

"não pressionou e tampouco teve qualquer ingerência nas operações realizadas pelo BRB"
. A defesa argumenta que o ex-presidente do banco detinha total autonomia para conduzir as negociações e que o contato com Ibaneis se deu em contexto natural, institucional e republicano. Além disso, a defesa alega que Ibaneis "não é interlocutor direto em nenhuma mensagem com Daniel Vorcaro" e que seu nome é mencionado pela PF em poucas oportunidades, o que não permitiria imputar qualquer responsabilidade ao ex-governador.

Quando as tratativas entre BRB e Banco Master começaram?

As investigações da PF indicam que as tratativas para a aquisição do Banco Master pelo BRB já estavam sendo preparadas desde outubro de 2024. Naquele período, o BRB colocou ações no mercado com o objetivo de captar até R$ 1 bilhão e ampliar seu capital social. Essa articulação, segundo os investigadores, funcionava como "etapas preparatórias para a consolidação futura" da aquisição.

Mensagens analisadas pela PF mostram que, em outubro de 2024, Paulo Henrique Costa já manifestava preocupação com as repercussões no mercado sobre o aumento de capital do BRB para comprar o Master, enfatizando a necessidade de "dar sinais ao mercado". Em conversas com Daniel Vorcaro, Paulo Henrique chegou a dizer que o objetivo era

"preparar a história toda que vamos contar em 3 meses da consolidação e do novo banco"
, o que, para a PF, evidencia a existência de uma narrativa predefinida de integração societária e operacional. Ele também mencionou uma conversa com o governador sobre a entrada de novos sócios como algo que
"vai ajudar os dois bancos a serem maiores e gerar mais resultados"
, demonstrando ciência e validação política da estratégia.

Quais foram os valores envolvidos na compra de carteiras de crédito?

Entre outubro de 2024 e fevereiro de 2025, o BRB comprou R$ 9,52 bilhões em carteiras de crédito emitidas pelo Banco Master. A PF estima que, em um ano, esse montante alcançaria R$ 16,7 bilhões. Relatórios anteriores da PF já indicavam que pelo menos R$ 12 bilhões teriam sido destinados à aquisição de carteiras de crédito consideradas problemáticas da Tirreno, uma empresa relacionada ao Banco Master. O Banco Central, por sua vez, projetou um rombo de R$ 5 bilhões após o BRB comprar R$ 12,2 bilhões em créditos fictícios do Master.

A Polícia Federal concluiu que

"o Banco Master passou a integrar, de forma indireta, a estrutura acionária do BRB"
, utilizando fundos de investimento como Borneo, Verbier e Delta. Esses fundos teriam sido "estruturados com o propósito de ocultar o beneficiário final e evitar a caracterização formal de controle ou participação qualificada", o que configura uma das práticas de gestão fraudulenta investigadas. As acusações da PF incluem "fraude documental e manipulação de garantias", "subversão dos mecanismos de controle interno" e "captura institucional", com "indícios robustos de falsidade ideológica e fraude contra instituição financeira" nos negócios entre BRB e Banco Master.

Quais são as outras revelações da investigação?

A Operação Compliance Zero também trouxe à tona outras informações relevantes. Mensagens revelam a tentativa de Daniel Vorcaro de despistar um jornalista sobre a negociação com o BRB. Em outro relatório, a PF aponta conversas entre Vorcaro e o ex-diretor de Contabilidade do Banco Master, Angêlo Antônio Ribeiro da Silva, sobre mudanças nos documentos de uma das carteiras vendidas ao BRB para tentar esconder a realidade dos papéis, com Vorcaro afirmando:

"Se mandar isso, fecha o banco"
.

Documentos revelados após a quebra de sigilo do caso Master também mostraram que Paulo Henrique Costa e Daniel Vorcaro tinham a maioria de suas contas bancárias zeradas na data do bloqueio de bens, com exceção de pequenos valores, como os R$ 51.737,65 em uma conta de Vorcaro no Itaú. Além disso, Antônio Carlos Freixo Júnior, ex-banqueiro conhecido como "Mineiro", apontou em sua delação premiada que Paulo Henrique Costa "triangulava operações" do Banco Master através do BRB para dar "maior lastro e credibilidade" aos negócios. Há ainda a menção de que Vorcaro teria citado apoio político à venda do Master ao BRB de uma ala do governo composta por ministros como Rui Costa (Casa Civil), Jaques Wagner (líder do governo no Senado) e Alexandre Silveira (Minas e Energia).

A complexidade do caso e a gravidade das acusações, que envolvem um banco público do Distrito Federal e figuras políticas importantes, continuam a ser um ponto central de atenção para a população do Centro-Oeste. A expectativa agora se volta para os próximos passos da investigação, especialmente diante da notícia de que Paulo Henrique Costa, ex-presidente do BRB, pretende firmar um acordo de delação premiada, o que pode trazer novas revelações e desdobramentos para o caso BRB e Banco Master.