Brasília, DF – Uma investigação conjunta da Polícia Civil do Distrito Federal (PCDF) e do Ministério da Justiça e Segurança Pública revelou que um grupo extremista planejava ataques contra os principais edifícios da Esplanada dos Ministérios, no coração da capital federal. Os suspeitos, oito homens com idades entre 19 e 31 anos, possuíam plantas detalhadas de órgãos como o Palácio do Planalto, o Congresso Nacional e o Supremo Tribunal Federal (STF), e discutiam estratégias para invadir e explodir esses locais durante o período eleitoral.
A Operação Rede Interrompida, deflagrada em 4 de agosto de 2026 pela Divisão de Prevenção e Combate ao Extremismo Violento (DPCEV) da PCDF, cumpriu mandados de busca e apreensão em cinco estados: Santa Catarina, Paraná, Rio Grande do Sul, São Paulo e Pernambuco. O foco da ação foi coletar celulares e computadores para aprofundar a compreensão do nível de planejamento do grupo, que se comunicava por meio de grupos públicos e restritos no aplicativo Telegram.
O que o grupo extremista planejava em Brasília?
O plano dos extremistas era ambicioso e visava desestabilizar a ordem política nacional. Segundo as investigações, o principal alvo identificado era o Palácio do Planalto, considerado o "alvo primário" pelos próprios integrantes. Eles não apenas possuíam mapas da área central de Brasília, marcando todos os ministérios, o Congresso Nacional e o STF, mas também difundiram a planta baixa do Palácio do Planalto, detalhando possíveis entradas e saídas.
As conversas monitoradas indicavam que o grupo planejava explodir o Palácio do Planalto e mirava especificamente o debate do segundo turno das eleições, buscando enviar uma mensagem violenta e antidemocrática para todo o país a partir de Brasília. Além disso, os membros compartilhavam instruções para a fabricação de explosivos e coquetéis molotov, realizando cálculos sobre quantidades e custos dos materiais necessários para desenvolver artefatos explosivos.
Ataques contra o sistema político
O coordenador de inteligência da Polícia Civil do Distrito Federal, Maurílio Coelho, afirmou que o grupo não definia nomes de autoridades como alvos específicos, mas se colocava contra o sistema político como um todo. "Eles fizeram um desenho da área central, marcando todos os ministérios, o Congresso Nacional e o Supremo Tribunal Federal, e estavam a definir qual seria o alvo primário. E em complemento, eles difundiram a planta baixa do Palácio do Planalto, como escolha de alvo primário", disse Coelho à Agência Brasil.
Para a população do Centro-Oeste, a notícia de um plano tão elaborado para atacar o coração da República é um lembrete contundente da vulnerabilidade das instituições e da importância da vigilância. Brasília, como sede do poder, é um símbolo nacional, e qualquer ameaça à sua segurança reverbera em todos os estados da federação, incluindo Goiás, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, que mantêm fortes laços econômicos e sociais com a capital.
Quem são os investigados e qual sua ideologia?
Os oito homens investigados não se conheciam presencialmente e tinham perfis variados, com idades entre 19 e 31 anos. Entre eles, havia um seminarista. A maioria, segundo Maurílio Coelho, está na faixa dos 19 aos 25 anos, com empregos diversos ou mesmo na ausência deles. Os suspeitos não possuíam antecedentes criminais, o que, para os investigadores, demonstra a complexidade de identificar e monitorar tais ameaças.
A motivação do grupo era promover uma "revolução" e a "abolição do Estado", defendendo uma mudança radical na organização da sociedade. Apesar de se declararem apartidários e sem um lado político específico, as conversas monitoradas revelaram uma forte ideologia neonazista, antissemita e misógina. Um dos grupos monitorados pelas autoridades, por exemplo, tinha uma foto de Adolf Hitler como imagem de perfil.
O discurso de ódio era disseminado com frequência, incluindo ataques a mulheres que ocupavam cargos de autoridade, como delegadas, juízas e investigadoras. Os administradores dos grupos no Telegram, que chegaram a ter mais de 600 integrantes, tentavam identificar pessoas dispostas a cometer assassinatos e recrutavam membros para um núcleo mais restrito, formado por 46 participantes, onde as discussões passavam de ideológicas para instruções de ações violentas.
Como a investigação descobriu o plano de ataque ao DF?
A apuração teve início a partir de um relatório do Ciberlab, laboratório de repressão a crimes cibernéticos do Ministério da Justiça e Segurança Pública, produzido com base em informações da Agência Brasileira de Inteligência (Abin). O delegado Alessandro Barreto, coordenador do Ciberlab, informou que o caso começou com um alerta da Abin, que identificou a atividade suspeita nos grupos de mensagens.
Após a identificação dos suspeitos, seus endereços foram descobertos e eles passaram a ser monitorados. O relatório do CyberLab apontou o "elevado grau de periculosidade" dos grupos, que utilizavam o aplicativo Telegram não apenas para disseminar conteúdos de ódio e recrutar integrantes, mas também para planejar detalhadamente as ações violentas. Somente em 2026, o CyberLab produziu 103 relatórios sobre mais de 50 grupos de ódio diferentes.
A Operação Rede Interrompida, embora não tenha resultado em prisões imediatas, foi crucial para desarticular o planejamento e coletar evidências digitais que ainda estão sendo analisadas. Os investigados devem responder por associação criminosa, apologia e distribuição de material nazista e incitação ao crime, conforme o Ministério da Justiça. As autoridades afirmam acreditar que os integrantes pretendiam levar o plano de ataques adiante, o que ressalta a importância da ação preventiva para a segurança nacional e, em particular, para a estabilidade do Distrito Federal e de toda a região Centro-Oeste.