Quase um ano após sua reabertura oficial, ocorrida em 27 de novembro de 2023, o Autódromo Internacional Nelson Piquet, em Brasília, consolida seu retorno ao cenário do esporte a motor nacional. A capital federal, que por cerca de 12 anos esteve fora do mapa da velocidade, volta a vibrar com o ronco dos motores, impulsionada por um robusto investimento e a homologação da Federação Internacional de Automobilismo (FIA). Este renascimento não apenas resgata um patrimônio esportivo, mas também promete um significativo impacto econômico e turístico para o Distrito Federal e toda a região Centro-Oeste.

Inaugurado em 1974, o Autódromo de Brasília já foi palco de uma corrida de Fórmula 1 não válida pelo campeonato e, por décadas, foi um celeiro de talentos e um ponto de encontro para os amantes da velocidade. No entanto, o circuito permaneceu fechado por mais de uma década, mergulhando em um longo período de inatividade que se encerrou com a entrega da primeira fase de sua modernização. O tricampeão de Fórmula 1, Nelson Piquet, que dá nome ao autódromo, expressou sua felicidade com a retomada: “É uma felicidade muito grande. O Autódromo de Brasília é essencial para o automobilismo brasileiro. Foram 11 anos parados e agora começa uma nova era.”

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A revitalização do espaço, que já era aguardada há anos, representa um marco para o automobilismo brasileiro, recolocando Brasília ao lado de importantes circuitos como Interlagos (SP), Goiânia (GO) e Velocitta (SP) no seleto grupo de autódromos com certificação internacional da FIA. Para o Centro-Oeste, a presença de duas pistas homologadas internacionalmente – Brasília e Goiânia – fortalece a região como um polo do esporte a motor, atraindo mais eventos e investimentos.

Qual o investimento e quem está por trás da revitalização do Autódromo de Brasília?

A reforma do Autódromo Internacional Nelson Piquet foi um projeto ambicioso, com a primeira fase das obras consumindo R$ 60 milhões. O financiamento integral e a administração do espaço estão a cargo do Banco de Brasília (BRB), um banco estatal que tem intensificado sua estratégia de exposição da marca em eventos esportivos e culturais. O governador Ibaneis Rocha (MDB) celebrou a reabertura, destacando a importância do autódromo como um vetor de desenvolvimento.

O envolvimento do BRB, no entanto, não esteve isento de controvérsias. A reabertura do autódromo, em novembro de 2023, ocorreu apenas dez dias após o banco ter sido alvo de uma operação da Polícia Federal que investigava a tentativa de compra do Banco Master pelo BRB, com indícios de fraude estimada em R$ 12 bilhões. Questionado na ocasião, o governador Ibaneis Rocha afirmou ter “total confiança” no novo presidente do BRB, Nelson Souza, nomeado após o afastamento judicial de Paulo Henrique Costa, que comandava o banco desde 2019. O BRB tem sido um grande investidor no esporte, destinando mais de R$ 28 milhões em patrocínios em 2024, sendo R$ 16,6 milhões apenas no setor esportivo, incluindo o patrocínio a pilotos como Felipe Nasr, Enzo Elias e Lucas Foresti, além da equipe Alpine na Fórmula 1.

O que torna o traçado de Brasília único no país?

O Autódromo de Brasília possui um traçado singular que o diferencia no cenário nacional e internacional. Com 5,475 km de extensão, sendo uma das maiores do país (embora outras fontes mencionem 5.384 metros), a pista é reconhecida por sua complexidade e seletividade. Apresenta curvas de alta, baixa, curvas cegas e retas longas e curtas, ideal para o desenvolvimento de pilotos. Suas curvas principais são conhecidas por nomes, como o Mergulho da Bruxa, a Curva da Piscina, a Reta do Placar e a Curva do Colégio Militar, assim como Interlagos tem o S do Senna.

A modernização da pista incluiu a substituição completa do pavimento por um asfalto técnico de alto desempenho, o “gap graded”, com 20 centímetros de espessura, tecnologia utilizada em autódromos europeus que garante maior aderência e durabilidade de até 20 anos. Além disso, foram instaladas 13 áreas de escape, 10 mil metros de guard rails e 40 mil metros quadrados de brita, garantindo maior segurança. O projeto técnico foi reconhecido pela Confederação Brasileira de Automobilismo (CBA), e seu presidente, Giovanni Guerra, entregou a homologação oficial da pista, afirmando que “É uma devolução para Brasília, para o Brasil e para o mundo. Somos 15 mil pilotos e todos tiram o chapéu por este feito. O autódromo volta como referência, pronto para gerar turismo, eventos e renda.”

Quais eventos o Autódromo de Brasília já recebeu e quais estão por vir?

Desde sua reabertura, o Autódromo de Brasília rapidamente voltou a sediar grandes competições. Nas semanas seguintes à inauguração em 2023, o circuito recebeu corridas de endurance da Stock Car, Stock Light e Porsche Cup. A etapa da F4 Brasil, que exige homologação internacional, também marcou presença, atestando a qualidade da pista. Infelizmente, o retorno em 2023 também foi marcado por um grave acidente entre Bruno Baptista e JP Oliveira, na Stock Car, um lembrete dos desafios e riscos inerentes ao esporte.

Para 2026, a agenda do autódromo já está movimentada, com mais de 50 pedidos de eventos e competições, segundo o Governo do Distrito Federal (GDF). Pelo menos seis grandes eventos já estão confirmados para este ano, incluindo a GT Series Cup, Endurance Brasil, Fórmula Truck, NASCAR Brasil Series (com a final da temporada prevista para 28 e 29 de novembro de 2026) e o Campeonato Paulista de Marcas e Pilotos. A presença de categorias de peso como a Stock Car, que teve sua 11ª etapa de 2023 no circuito, com nomes como Rubens Barrichello, Felipe Massa e Nelsinho Piquet, diante de um público estimado em 30 mil pessoas por dia, demonstra o potencial de atração do autódromo.

Como a reabertura impacta a economia e o turismo do Centro-Oeste?

A localização estratégica do Autódromo Internacional Nelson Piquet é um de seus maiores trunfos. Situado no centro de Brasília, é acessível a pé do setor hoteleiro mais próximo, uma característica rara entre grandes autódromos mundiais. Essa proximidade com a infraestrutura urbana da capital federal, que possui uma ampla rede hoteleira e uma farta malha aérea, é um diferencial competitivo para atrair eventos e visitantes.

O governo do Distrito Federal aposta que a modernização do autódromo impulsionará o turismo e movimentará a economia local. A vice-governadora Celina Leão ressaltou que a reabertura “cumpre o compromisso de colocar Brasília novamente no mapa do automobilismo nacional e internacional. É uma entrega histórica, com infraestrutura de padrão mundial.” A expectativa é que o espaço atraia eventos e visitantes, inclusive estrangeiros, gerando renda e empregos para a região. Para o Centro-Oeste, isso significa um aumento no fluxo turístico e uma diversificação da economia, com impacto positivo em setores como hotelaria, gastronomia, transporte e serviços.

Quais são os próximos passos para a infraestrutura do autódromo?

Apesar dos avanços significativos, o autódromo ainda carece de infraestrutura completa em algumas áreas. A prioridade da primeira fase foi entregar a pista, mas um evento esportivo de primeira linha no esporte a motor exige mais. Áreas como boxes bem construídos, espaços de hospitalidade, operação de lanchonetes, estacionamentos e melhores áreas para o público ainda precisam de investimentos, conforme apontado por especialistas do setor.

As próximas etapas da reforma já estão previstas e elevarão o investimento total para R$ 100 milhões. Elas incluem a entrega definitiva dos boxes, a construção de um kartódromo, a instalação de um centro médico e a criação de um “racing center”, que deverá abrigar lojas, museu e áreas de eventos. Essas melhorias são cruciais para que o Autódromo de Brasília possa oferecer uma experiência completa e de alto padrão para equipes, pilotos e público, consolidando-o como um dos melhores circuitos do continente, como projetou Lincoln Oliveira, presidente da Vicar, organizadora da Stock Car.