Leandro Grass (PT), candidato ao Governo do Distrito Federal (GDF), acusou o governo de ter despendido R$ 309,3 milhões em publicidade institucional entre janeiro de 2025 e setembro de 2026. A denúncia, feita em coletiva de imprensa nesta sexta-feira (23/10/2026) na sede nacional do Partido dos Trabalhadores, em Brasília, levantou questionamentos sobre contratos públicos e negócios supostamente ligados à governadora Celina Leão (PP), que busca a reeleição.
Para os moradores do Distrito Federal, as acusações sugerem um debate sobre a destinação de recursos públicos.
Em uma apresentação de 24 slides intitulada “O que Celina Leão precisa explicar”, o petista detalhou nove pontos de cobrança. Ele criticou a ausência da adversária em debates, afirmando que ela "não teve coragem de me enfrentar nessa eleição", contestando as justificativas de Celina para não participar dos encontros eleitorais.
Além do montante total de R$ 309,3 milhões, Grass questionou a destinação dos recursos, sugerindo que parte do dinheiro foi para portais de "baixa audiência", levantando a hipótese de que esses sites poderiam estar "comprados", afirmando que o objetivo seria "divulgar uma imagem positiva da gestão".
Gastos com publicidade do GDF (Julho a Setembro de 2026)
Gastos do GDF com publicidade sob escrutínio
Os questionamentos de Grass vêm à tona em um cenário onde o próprio GDF divulgou gastos significativos com publicidade. Entre julho e setembro de 2026, o governo desembolsou R$ 34,9 milhões em comunicação, conforme publicado no Diário Oficial do Distrito Federal (DODF).
| Meio de Comunicação | Valor (R$) |
|---|---|
| Internet | 8.560.000 |
| Televisão institucional | 6.130.000 |
| Criação de campanhas (filmes, fotos, gráficos, pesquisas) | 3.580.000 |
| Veículos alternativos (174 sites, blogs, jornais regionais) | 3.250.000 |
| Publicidade legal obrigatória | 544.500 |
| Outros (rádios, jornais impressos, plataformas digitais) | 12.835.500 |
| Total | 34.900.000 |
Apesar dos gastos, o governo ainda mantinha, ao final de setembro de 2026, um saldo orçamentário de R$ 47 milhões disponível exclusivamente para publicidade institucional. Além disso, R$ 37,38 milhões foram empenhados para novas campanhas no mesmo período, sendo R$ 36,5 milhões para ações de utilidade pública. Entre as campanhas futuras previstas, destaca-se a de combate ao feminicídio, com R$ 13 milhões, e outra de R$ 13 milhões para prevenção de incêndios florestais.
Questionamentos sobre relações empresariais e políticas
A apresentação de Grass também focou na Faceng Engenharia, empresa que, segundo o material, tem como sócios Fabrício Faleiro Ferreira, marido de Celina, e Bruna Leão, filha da governadora. A empresa teria recebido R$ 3,3 milhões entre maio de 2025 e julho de 2026, por meio de 21 notas fiscais.
Desse total, R$ 1,5 milhão teria sido pago pela Real JG e pela 3J Facilities, enquanto R$ 1,8 milhão teria origem em empresas do Grupo Foco. Grass questionou a descrição dos serviços nas notas, afirmando que os documentos não detalhavam as obras:
“As notas só dizem serviços de engenharia civil, sem obras, sem endereços, sem medição”, disse Grass. A campanha de Grass levou o caso ao Ministério Público do Distrito Federal e Territórios (MPDFT) há mais de um mês.
Outro ponto central foi a tentativa de compra do Banco Master pelo Banco de Brasília (BRB). Grass questionou o conhecimento da governadora sobre as negociações conduzidas durante a gestão do ex-governador Ibaneis Rocha (MDB). Ele citou uma mensagem atribuída ao banqueiro Daniel Vorcaro, na qual ele teria dito que Celina "não ficou de fora" das negociações, afirmando que "Isso aí é jogo para se preservar na política".
O candidato também questionou a relação entre Celina, Ibaneis e Leonardo Valverde, apontado como intermediário nas negociações. A apresentação mencionou encontros, vínculos políticos e a nomeação de Adriana Valverde, mãe de Leonardo, para um cargo comissionado no gabinete de Celina quando ela presidia a Câmara Legislativa do Distrito Federal (CLDF), em 2016. Grass perguntou:
“Celina, vice-governadora, com gabinete ao lado do de Ibaneis e indicada por ele para sucedê-lo, nada sabia sobre o Master? Ela orientou os dois deputados do PP a votar contra ou a favor da compra do Master pelo BRB? Por que aceitou como vice o braço direito de Ibaneis, se diz não ter nada a ver com ele?”
Grass ainda exibiu dados sobre valores recebidos por Engels Muniz (Republicanos), administrador do escritório de advocacia de Gustavo Rocha, candidato a vice-governador na chapa de Celina. O escritório teria recebido R$ 65,7 milhões do Banco Master e de empresas contratadas pelo GDF, sendo R$ 56,4 milhões da Auto Viação Marechal e da Sustentare, e R$ 9,3 milhões de um fundo ligado ao Master e Vorcaro.
A relação comercial entre Celina e Edmundo Pinheiro, proprietário da empresa de transporte coletivo Urbi, também foi destacada. Em setembro de 2025, a governadora, seu marido e o empresário compraram conjuntamente metade de um embrião de gado da raça Nelore por cerca de R$ 500 mil. Dois dias depois, um aditivo ao contrato da Urbi com o GDF teria sido assinado. Em agosto de 2026, Celina encaminhou à CLDF uma proposta de crédito de R$ 508,5 milhões para concessionárias de transporte. Grass questionou a ética da sociedade com o dono de uma empresa que tem contrato com o governo dela.
Operação Drácon e processos judiciais
A situação judicial de Celina Leão também foi abordada. A governadora é ré em dois processos relacionados à Operação Drácon, iniciada em 2016, que investigou suspeitas de corrupção envolvendo emendas parlamentares na Câmara Legislativa do Distrito Federal (CLDF).
Em um dos casos, Celina foi absolvida em primeira instância por falta de provas em março de 2025, mas o Ministério Público recorreu. Em abril de 2026, o Tribunal de Justiça do Distrito Federal e dos Territórios (TJDFT) encaminhou o recurso ao Conselho Especial. O outro processo trata de suspeitas de improbidade administrativa por supostas vantagens indevidas em emendas parlamentares. Grass criticou a demora na tramitação, afirmando que a defesa teria adotado medidas protelatórias. Ele declarou ser "impressionante que, dez anos depois de uma operação como essa, não se tenha ainda o resultado".
Grass também apresentou um levantamento de processos movidos contra sua campanha na Justiça Eleitoral. Segundo ele, a campanha de Celina ingressou com 35 ações. Dessas, 14 foram julgadas improcedentes ou arquivadas, 14 tiveram pedidos liminares indeferidos, cinco resultaram em liminares parciais e duas decisões procedentes estão em fase recursal.
O que dizem os envolvidos e próximos passos
Procurada para comentar os questionamentos, a assessoria da governadora Celina Leão informou que ela não se manifestaria sobre o assunto. Grass a acusou de evitar debates eleitorais, o que, segundo ele, representa um "desrespeito ao povo de Brasília, à imprensa e à democracia".
Questionado sobre os próximos passos, Grass afirmou que pretende continuar levando as denúncias aos órgãos competentes, independentemente do resultado do segundo turno, marcado para este domingo (25/10/2026). Ele declarou:
“Nós não vamos deixar que isso seja abafado, colocado debaixo do tapete, como foram tantas outras coisas aqui no Distrito Federal. O escândalo do BRB está debaixo do tapete. O desvio de dinheiro na saúde, desde lá do primeiro governo Ibaneis, está debaixo do tapete. Esses processos estão parados há anos. Nós vamos insistir. Vamos até o final, até as últimas consequências, para que haja responsabilização sobre todas as irregularidades da campanha e as irregularidades que nós trazemos aqui.”
As eleições para o governo do Distrito Federal seguem para o segundo turno neste domingo (25), com a disputa entre Celina Leão e Leandro Grass. O desfecho das urnas e a eventual continuidade das investigações sobre as denúncias de Grass serão acompanhados de perto pela população do Centro-Oeste.