Em um movimento que sacode o cenário político de Goiás e repercute em todo o Centro-Oeste, o ex-governador José Eliton e um grupo de quase 30 lideranças históricas do PSDB no estado declararam, neste domingo (18 de outubro de 2026), apoio à reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no segundo turno das eleições. A decisão, formalizada em um manifesto, coloca o grupo em rota de colisão com o diretório estadual do partido, que havia anunciado suporte a Flávio Bolsonaro (PL), com o aval do ex-governador Marconi Perillo.

A iniciativa das Lideranças PSDB Goiás apoiam Lula no segundo turno ocorre a apenas uma semana do pleito decisivo, agendado para 25 de outubro. A divergência acende um alerta sobre a coesão interna do PSDB goiano, um partido que historicamente teve forte influência na política do estado e da região. A cisão reflete não apenas diferentes visões sobre o futuro do país, mas também as complexas dinâmicas políticas que permeiam o Centro-Oeste.

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Quem são os signatários e quais suas motivações para apoiar Lula?

O “Manifesto por um Brasil Soberano, Justo e Inclusivo” reúne uma série de figuras proeminentes da política goiana e nacional, com forte ligação histórica ao PSDB. Além do ex-governador José Eliton, assinam o documento:

  • Giuseppe Vecci: Vice-presidente nacional do PSDB e ex-deputado federal.
  • Raquel Teixeira: Ex-deputada federal e ex-secretária de Educação de Goiás e do Rio Grande do Sul.
  • Jalles Fontoura: Empresário e ex-deputado federal.
  • Matheus Ribeiro: Jornalista e ex-candidato à Prefeitura de Goiânia em 2024.
  • Fabrina Müller Figuerêdo: Ex-primeira-dama do Estado de Goiás.
  • Jonathas Silva: Professor de Direito Constitucional e ex-presidente do PSDB em Goiás.
  • Jayme Rincon: Ex-presidente da Agetop.
  • Paulo de Jesus: Ex-presidente do PSDB.
  • Antônio Faleiros: Ex-deputado federal e ex-secretário estadual da Saúde.

O grupo, que se autodenomina integrante do “centro democrático brasileiro”, independentemente de filiação partidária, fundamenta seu apoio em princípios como a defesa da democracia, do Estado de Direito, do diálogo e dos valores social-democratas. O manifesto é claro ao afirmar:

“Diante das circunstâncias atuais do Brasil, e em plena coerência com os valores aqui afirmados, declaramos nosso voto no presidente Lula e no vice-presidente Alckmin — candidatura que reúne trajetórias distintas em torno da defesa da democracia, da inclusão social e do desenvolvimento nacional.”

A decisão, segundo os signatários, representa uma escolha independente, guiada pelo compromisso com as instituições democráticas e a moderação política. Para o Centro-Oeste, onde o debate sobre a democracia e o papel das instituições tem sido intenso, essa manifestação de um grupo com histórico de centro-direita em favor de um candidato de esquerda é um sinal de realinhamento.

Qual o histórico político de José Eliton e sua coerência?

José Eliton, embora descrito por algumas fontes como sem partido no momento da declaração, possui uma trajetória política profundamente ligada ao PSDB e ao campo da social-democracia. Em entrevista ao Diário de Goiás, Eliton afirmou que sua decisão de apoiar a chapa Lula-Alckmin está alinhada à sua construção política, citando nomes como Mário Covas, Franco Montoro, Fernando Henrique Cardoso, Geraldo Alckmin e Henrique Santillo como referências.

O ex-governador destacou sua coerência em eleições passadas:

  • Em 2018, apoiou Geraldo Alckmin no primeiro turno e Fernando Haddad no segundo.
  • Em 2022, declarou voto em Lula e Alckmin.

“Sempre me posicionei dentro desse espectro ideológico: centro democrático”, reforçou Eliton, enfatizando que “valores democráticos, a defesa das minorias, a inclusão social, as garantias individuais e a preservação ambiental são os pilares que fundamentam minhas decisões”. Para os eleitores do Centro-Oeste, acostumados a ver Eliton como uma figura ligada ao PSDB tradicional, essa consistência em seu posicionamento ideológico, mesmo com a mudança de apoio partidário, pode ser um fator relevante.

O que o grupo espera de um eventual novo governo Lula?

Apesar do apoio declarado, os políticos deixam claro que a adesão não é irrestrita. O manifesto pontua que a declaração de voto “não implica na abdicação das críticas construtivas”. O grupo defende a necessidade de “corrigir rotas” em uma eventual nova gestão de Lula e cobra a formação de um governo mais amplo, que vá além da composição de uma maioria parlamentar e contemple diferentes setores e pensamentos da sociedade.

José Eliton reforçou essa cobrança, afirmando que espera que uma eventual vitória de Lula possibilite “correções de rota para viabilizar uma gestão verdadeiramente plural, que represente o pensamento de toda a sociedade brasileira, e não apenas de um espectro partidário”. Para ele, “é imprescindível que o novo governo contemple as demandas de toda a população, visando alcançar a paz social e a unidade nacional”.

O vice-presidente da República, Geraldo Alckmin (PSB), a quem o documento foi encaminhado, gravou um vídeo agradecendo o apoio. Ele afirmou que o manifesto “traduz o que há de melhor na política brasileira: a moderação, o diálogo, o respeito às diferenças e o compromisso com a justiça social, com o desenvolvimento sustentável e com as instituições”. Essa troca de acenos demonstra a busca por uma frente mais ampla, característica do cenário político atual.

Como a decisão impacta o PSDB em Goiás e no Centro-Oeste?

A declaração de apoio a Lula por um grupo tão expressivo de ex-dirigentes e figuras históricas do PSDB em Goiás evidencia uma profunda rachadura dentro do partido no estado. A decisão do diretório estadual de apoiar Flávio Bolsonaro, tomada por maioria na sexta-feira (16 de outubro de 2026) e com o aval de Marconi Perillo, agora se choca com a manifestação de parte de seus antigos quadros.

Essa divisão é particularmente significativa em Goiás, onde o PSDB teve uma hegemonia por décadas. A influência de Marconi Perillo, que ainda é uma figura central para o partido no estado, é confrontada pela voz de outros expoentes tucanos. Para o eleitor do Centro-Oeste, essa fragmentação pode gerar confusão e questionamentos sobre a identidade e o futuro do PSDB na região.

O manifesto também apresenta os princípios defendidos pelo grupo, que incluem o fortalecimento do Estado democrático de direito, a independência das instituições, a liberdade, a justiça social, a responsabilidade fiscal e o respeito aos direitos humanos e às minorias. O texto enfatiza o papel do centro político:

“O centro democrático não é omissão, não é indefinição, não é covardia. O centro democrático é uma posição firme e altiva: a da razão contra o fanatismo, a da Constituição contra o arbítrio, a do interesse nacional contra o sectarismo.”

Essa postura busca reafirmar um espaço para a moderação em um cenário político polarizado, o que pode ressoar em estados como Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, onde a busca por equilíbrio e diálogo também é uma pauta importante. A intenção do grupo é contribuir para que o país reencontre “o caminho da moderação, do equilíbrio e da esperança” e para o fortalecimento do centro democrático na política brasileira.

A menos de uma semana do segundo turno, a decisão de José Eliton e das lideranças históricas do PSDB goiano de apoiar Lula não é apenas um fato isolado. Ela representa um sintoma das reconfigurações políticas em curso no Brasil e, de forma mais específica, no Centro-Oeste, onde as alianças e os posicionamentos partidários estão em constante mutação, impactando diretamente o eleitorado da região.