A falta de chuva em Mato Grosso continua a ser um fator de preocupação para os produtores rurais, ameaçando o ritmo do plantio da soja para a safra 2026/27. Neste sábado, 17 de outubro de 2026, análises da EarthDaily revelam que, apesar de uma leve melhora nas últimas semanas, a umidade do solo no principal estado produtor do país permanece abaixo da média histórica, contrastando com a situação mais favorável observada em Goiás e Mato Grosso do Sul.

A distribuição irregular das precipitações tem gerado cenários distintos para o avanço da safra no Brasil. Enquanto a Região Sul registrou volumes de chuva superiores a 70 milímetros nos dez dias mais recentes, com acumulados que superaram 2015 e 2023 – anos marcados pelo El Niño –, o Centro-Oeste experimenta uma recuperação hídrica desigual. Em Mato Grosso, essa irregularidade é particularmente crítica, pois o estado é o maior produtor de soja do país e a base do agronegócio regional.

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Qual o cenário da umidade do solo no Centro-Oeste?

As condições no Centro-Oeste são heterogêneas. Segundo Felippe Reis, analista de culturas da EarthDaily, “Em Mato Grosso, principal estado produtor de soja do país, os níveis atuais de umidade do solo permanecem inferiores à média histórica, embora apresentem melhora em relação às semanas anteriores.” Ele complementa que a previsão do modelo meteorológico europeu (ECMWF) para 22 de outubro indica pouca recuperação adicional, com persistência do déficit hídrico em grande parte das áreas agrícolas do estado. Além disso, os modelos ECMWF e GFS projetam chuvas abaixo da média para os próximos dez dias, cenário que pode restringir o ritmo de plantio e o desenvolvimento inicial das lavouras.

Em contrapartida, Goiás e Mato Grosso do Sul apresentam um quadro mais favorável. Desde o início de outubro, ambos os estados registraram recuperação expressiva da umidade do solo, com níveis superiores à média histórica e aos observados no mesmo período de 2023, 2024 e 2025. As projeções indicam a manutenção de condições favoráveis nas próximas semanas, reduzindo o risco de restrições hídricas ao estabelecimento das lavouras de soja e milho nesses estados. Para os produtores do Centro-Oeste, essa disparidade significa que, enquanto alguns podem avançar com mais segurança, outros enfrentam a incerteza e a necessidade de cautela.

Outro fator que contribui para a conservação da água no solo em algumas regiões é o comportamento das temperaturas. Em grande parte do Centro-Sul, os termômetros têm registrado valores próximos ou abaixo da média, o que reduz a demanda evaporativa. Essa condição favorece a manutenção da umidade nas áreas que já receberam precipitações suficientes para recompor a disponibilidade hídrica, mas não é suficiente para compensar a falta de chuva em Mato Grosso onde o déficit é mais acentuado.

Como o plantio da soja avança em Mato Grosso?

Até 9 de outubro de 2026, o plantio da soja da safra 2026/27 em Mato Grosso alcançou 33,28% da área prevista, representando um avanço de 23,04 pontos percentuais em apenas uma semana. Este percentual está 12,06 pontos percentuais acima do registrado no mesmo período da safra 2025/26, mas 1,81 ponto percentual abaixo da safra 2023/24. A região Médio-Norte liderou o avanço do plantio, com 50,22% da área semeada, seguida pelo Oeste, com 41,83%. No entanto, a persistente falta de chuvas continua a limitar os trabalhos no Noroeste do estado.

A irregularidade das chuvas é um desafio constante. Em Campo Novo do Parecis, Mato Grosso, a situação é particularmente preocupante, com alguns produtores tendo apenas cerca de 50% das áreas plantadas. Antônio César Brolio, presidente do Sindicato Rural de Campo Novo do Parecis, relatou em 14 de outubro de 2026 que as precipitações têm apresentado grandes diferenças entre propriedades próximas, com algumas áreas recebendo até 40 milímetros de chuva, enquanto outras registraram apenas 8 milímetros no último fim de semana. Essa variação dificulta o planejamento e aumenta os riscos para os agricultores.

A evolução das chuvas nas próximas semanas será crucial para as condições de semeadura e para o estabelecimento inicial da soja na safra 2026/27. Chuvas de primavera definem safra de soja 2026/27 em Mato Grosso, e a ausência delas agora é um sinal de alerta.

Quais os riscos para a safra 2026/27 e a segunda safra?

O atraso no plantio da soja já gera preocupação com a janela de cultivo da segunda safra, que inclui milho e algodão. A janela considerada adequada para o algodão após a soja, por exemplo, já foi ultrapassada em algumas regiões. A incerteza climática está influenciando as decisões comerciais, com vendedores de sementes de milho ainda possuindo volumes expressivos disponíveis e agricultores demonstrando cautela nas aquisições. É possível uma redução da área de milho segunda safra em comparação com o ciclo anterior, caso o plantio da soja não avance satisfatoriamente nos próximos dias.

A emergência da soja é a fase de maior risco, pois a disponibilidade hídrica determina a formação do estande de plantas. Com fertilizantes e sementes em patamares historicamente elevados, o custo de um replantio pesa mais do que em safras anteriores, aumentando a pressão sobre os produtores. Essa cautela se mostra ainda mais relevante diante do cenário atual.

O que o histórico recente nos ensina sobre a falta de chuva em Mato Grosso?

A experiência da safra 2023/2024, sob a influência do fenômeno El Niño, serve como um alerta. Naquele período, o plantio da soja em Mato Grosso estava atrasado em relação ao mesmo período da safra anterior devido às chuvas irregulares e altas temperaturas, com sérias dificuldades. Houve relatos de replantio de lavouras, um cenário que os produtores de hoje buscam evitar.

A safra 2023/24 de soja em Mato Grosso teve uma queda projetada devido a problemas climáticos intensificados pelo El Niño. Houve necessidade de ressemeadura de parte da área prevista, gerando custos adicionais e perdas de produtividade. O plantio de soja no Brasil acelera, mas a cautela é fundamental em regiões como Mato Grosso.

Quais são as previsões para os próximos dias?

Para os próximos dias, a previsão de chuvas acima da média em áreas de Goiás, Minas Gerais, São Paulo e Paraná tende a favorecer a manutenção da umidade do solo e o desenvolvimento inicial das lavouras de verão. No entanto, Mato Grosso, por outro lado, permanece como o principal ponto de atenção no Centro-Oeste, diante da perspectiva de precipitações insuficientes para uma recuperação mais consistente da disponibilidade hídrica. Felippe Reis, da EarthDaily, reforça que os modelos meteorológicos indicam chuvas abaixo da média para o estado nos próximos dez dias.

Enquanto a falta de chuva em Mato Grosso preocupa, o excesso de precipitação impõe dificuldades à produção de trigo no Sul. Segundo a EarthDaily, o volume acumulado desde setembro atingiu o maior patamar dos últimos 11 anos, superando inclusive os registros de 2015 e 2023. Essa persistência das chuvas pode dificultar as operações de colheita e comprometer a qualidade dos grãos, especialmente em Santa Catarina e no Rio Grande do Sul. No entanto, para os próximos dez dias, os modelos meteorológicos indicam precipitações abaixo da média no território gaúcho, o que poderá favorecer a retomada dos trabalhos no campo.

Acompanhar a evolução climática é crucial para os produtores mato-grossenses, que aguardam chuvas mais regulares e volumosas para garantir o sucesso do plantio e evitar os prejuízos observados em safras passadas. A resiliência e a capacidade de adaptação serão testadas mais uma vez diante dos desafios impostos pelo clima.