Em um cenário de incertezas globais e pressões inflacionárias, o Fundo Monetário Internacional (FMI) revisou para baixo as projeções de crescimento econômico para a América Latina e o Caribe para os anos de 2026 e 2027. O relatório “Perspectiva Econômica Global”, divulgado nesta terça-feira, 13 de outubro de 2026, durante as reuniões anuais do FMI e do Banco Mundial em Bangcoc, Tailândia, aponta uma desaceleração que impacta diretamente países como o Brasil e, por consequência, a economia do Centro-Oeste.

A previsão atualizada do FMI para o crescimento regional em 2026 é de 2,3%, uma redução de 0,1 ponto percentual em relação à estimativa de 2,4% feita em julho. Para 2027, a projeção também foi ajustada para baixo, passando de 2,7% para 2,5%. Em 2025, a região registrou um crescimento de 2,5%. A inflação média para a América Latina e o Caribe é esperada em 4,2% em 2026, com uma ligeira queda para 4,1% em 2027. Excluindo a Venezuela, a inflação regional projetada é de 6,8% para este ano.

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O que impulsiona a desaceleração na América Latina?

A principal justificativa do FMI para a revisão pessimista reside na combinação de fatores globais e regionais. Um dos pontos centrais é o limitado benefício que a maior parte da América Latina tem obtido do avanço da inteligência artificial (IA). Enquanto a IA tem sido um motor de resiliência e investimento em outras economias globais, ajudando-as a absorver choques, a região latino-americana apresenta pouca compensação vinda da recuperação do setor tecnológico.

Outro fator crucial é o choque energético provocado pela guerra no Oriente Médio. O conflito elevou o preço do petróleo Brent em aproximadamente 45% acima dos níveis pré-guerra, transformando a energia em um choque inflacionário global. Os custos mais elevados de combustível e energia pressionam famílias e empresas em toda a região. Para os estados do Centro-Oeste, como Goiás, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e o Distrito Federal, essa alta nos preços de combustíveis se traduz em custos maiores para o transporte de grãos e insumos agrícolas, impactando diretamente o agronegócio, pilar econômico da região. Além disso, o encarecimento da energia afeta o custo de vida e a capacidade de investimento de empresas locais.

Os temores de uma inflação persistente também contribuíram para elevar os custos globais de financiamento a níveis não vistos em várias décadas. Na América Latina, o FMI observa que o efeito do choque energético depende do equilíbrio entre os ganhos dos exportadores de commodities e as perdas dos importadores de energia, além da credibilidade das metas de inflação dos bancos centrais.

Como o Brasil é afetado pelas novas projeções do FMI?

O Brasil não escapa à tendência de desaceleração. As projeções de crescimento para a economia brasileira foram reduzidas para 2,2% em 2026 e 1,9% para 2027. Em julho, as estimativas eram de 2,4% e 2,2%, respectivamente, quando o FMI esperava que o crescimento brasileiro “permaneceria resiliente” neste ano. Em 2025, o Produto Interno Bruto (PIB) do país havia expandido 2,3%.

A desaceleração projetada para o Brasil é atribuída principalmente à manutenção de condições monetárias ainda restritivas, visando trazer a inflação de volta à meta, à retirada do apoio fiscal do governo e às incertezas globais. Para o Centro-Oeste, essa realidade se manifesta de diversas formas. As condições monetárias apertadas, com juros elevados, encarecem o crédito para produtores rurais, indústrias e consumidores. Isso pode frear investimentos em máquinas agrícolas, expansão de negócios e consumo de bens e serviços, afetando o dinamismo de cidades como Goiânia, Cuiabá e Campo Grande.

A retirada do apoio fiscal governamental também pode significar menos recursos para infraestrutura e programas sociais que poderiam beneficiar a região. Além disso, a dependência do Centro-Oeste do agronegócio, embora seja uma força, também o torna vulnerável a flutuações de preços de commodities e custos de produção, que são diretamente impactados pelo choque energético e pela inflação global. Os moradores do Distrito Federal e das capitais estaduais sentirão o peso da inflação nos produtos básicos e serviços, pressionando o orçamento familiar.

Quais outros países da América Latina sentem o impacto?

O relatório do FMI detalha o impacto em diversas economias latino-americanas, mostrando um cenário heterogêneo, mas majoritariamente de desaceleração:

  • Argentina: Sofreu a maior redução em sua estimativa de produção, com a projeção de crescimento para 2026 drasticamente cortada de 3,5% (em julho) para 2,1%. Em 2025, o país cresceu 4,5%. A previsão para 2027 também foi reduzida de 4% para 3,5%. A inflação média para 2026 foi elevada para 32,5% (ante 30,4% em abril), e para 2027, para 21,2% (ante 15,7%). A economista do Fundo, Petya Koeva Brooks, atribuiu o corte à “menor atividade observada no terceiro trimestre deste ano” e à “demanda doméstica mais fraca em um contexto de condições financeiras domésticas ainda apertadas e a contínua transformação estrutural da economia”.
  • México: Seguiu um caminho oposto, com sua previsão para 2026 elevada de 1,2% para 1,5%. Essa recuperação é impulsionada pelas exportações, inclusive por meio de cadeias de suprimentos de IA, e pela estabilização dos investimentos. Contudo, a previsão para 2027 foi reduzida de 1,9% para 1,8%, com o Fundo alertando que o comércio e outras incertezas podem frear a atividade.
  • Chile: Registrou o maior ajuste para baixo, com um corte de 1,8 ponto percentual, e o crescimento agora é de 0,6% em 2026.
  • Uruguai: A previsão foi cortada em meio ponto percentual, para 1,3%, devido ao impacto da seca na agricultura.
  • Bolívia: A economia deve encolher 3% em 2026, após uma contração de 1,6% em 2025.
  • Venezuela: A inflação deve acelerar de 252% em 2025 para 467,9% em 2026.

Globalmente, o FMI elevou ligeiramente sua previsão de crescimento mundial para 2026 de 3,0% (em julho) para 3,1%, atribuindo a resiliência do que chama de “economia global dividida” ao redirecionamento dos suprimentos de energia e aos investimentos impulsionados pela inteligência artificial. No entanto, a inflação global deve subir para 4,7% em 2026, impulsionada por energia e alimentos.

Quais são os riscos e recomendações do FMI para a região?

O FMI alertou que os riscos para as projeções continuam inclinados para o lado negativo. A turbulência nos mercados financeiros, por exemplo, poderia afetar as economias emergentes por meio de custos mais elevados de endividamento público, pressão sobre suas moedas e condições financeiras locais mais restritivas. Para o Centro-Oeste, isso significa que empresas e governos estaduais podem enfrentar maiores dificuldades para captar recursos, impactando projetos de desenvolvimento e a capacidade de resposta a crises.

Diante desse cenário, o Fundo enfatizou que as autoridades monetárias e os governos precisam conter os desdobramentos inflacionários do choque inicial. A recomendação expressa para os países latino-americanos é manter a prioridade no controle da inflação. Para os gestores públicos e privados do Centro-Oeste, isso implica em um planejamento financeiro cauteloso, com atenção redobrada aos gastos e à busca por eficiência. A diversificação econômica e a atração de investimentos em setores menos dependentes de commodities ou mais integrados à economia digital podem ser estratégias importantes para mitigar os impactos negativos e buscar novas fontes de crescimento.

Em resumo, as novas projeções do FMI pintam um quadro de cautela para a América Latina e o Brasil, exigindo vigilância e políticas econômicas adaptadas para enfrentar os desafios impostos pelo cenário global, especialmente o choque energético e a limitada absorção dos benefícios da inteligência artificial.