A Santa Casa de Misericórdia de Cuiabá, um dos mais antigos e emblemáticos hospitais do Centro-Oeste, teve seu futuro assegurado em fevereiro de 2026 com a aquisição definitiva de seu prédio pelo Governo de Mato Grosso por R$ 30 milhões. A medida encerrou um período de incertezas e intensas articulações políticas, lideradas pelo deputado estadual Dr. João (MDB), primeiro-secretário da Assembleia Legislativa de Mato Grosso (ALMT), que se mobilizou para evitar a desativação da unidade e garantir a continuidade de serviços essenciais à população.

A história da Santa Casa, fundada entre 1815 e 1817, é profundamente entrelaçada com a de Cuiabá e de Mato Grosso. Considerada a unidade de saúde mais antiga do Centro-Oeste, ela enfrentava, desde 2019, uma grave crise financeira que levou ao seu fechamento temporário como instituição filantrópica. Naquele mesmo ano, o Governo de Mato Grosso requisitou administrativamente o prédio e passou a manter os atendimentos, transformando-a no Hospital Estadual Santa Casa.

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Qual o papel do deputado Dr. João na defesa da Santa Casa Cuiabá?

A possibilidade de desativação da Santa Casa ganhou força com o anúncio da iminente inauguração do Hospital Central de Cuiabá. Foi nesse cenário que o deputado Dr. João, médico nefrologista com vasta experiência em saúde pública, intensificou seus esforços a partir de maio de 2025. Ele realizou diversas reuniões com médicos, funcionários, representantes do Conselho Regional de Medicina (CRM) e lideranças, além de visitar a unidade e convidar a sociedade para uma audiência pública que ocorreu em 19 de maio de 2025, na Sala Deputada Sarita Baracat, na ALMT.

Dr. João destacou a importância da Santa Casa como patrimônio histórico e prestadora de serviços essenciais, como hemodiálise e oncologia, especialidades que, segundo ele, não seriam totalmente absorvidas pelo Hospital Central. “A Santa Casa é um patrimônio histórico de Mato Grosso e presta serviços essenciais, como hemodiálise e oncologia, especialidades que não serão totalmente absorvidas pelo Hospital Central. Precisamos encontrar uma solução que preserve seu legado e garanta atendimento à população. Não podemos ver os pacientes sofrerem mais”, afirmou o parlamentar ao portal Isso É Notícia, após visitar a unidade em maio de 2025.

A Comissão de Saúde da ALMT, da qual Dr. João é integrante, aprovou em 29 de abril de 2025 um requerimento para a realização da audiência pública. “Estamos mobilizando deputados, governo, prefeitura e sociedade para evitar que Cuiabá perca esse importante equipamento de saúde”, disse Dr. João, também ao Isso É Notícia. Ele reforçou que o trabalho era “ouvir todos os envolvidos e construir uma solução que respeite a história da Santa Casa e as necessidades da população”.

Em setembro de 2026, o deputado relembrou sua atuação, enfatizando a preocupação com a continuidade dos atendimentos de alta complexidade. “Quando começou essa discussão, nossa preocupação era com as pessoas. Não dava para simplesmente fechar uma porta onde centenas de pacientes faziam tratamento e dizer que depois encontraríamos uma solução. Era preciso garantir continuidade, principalmente para quem enfrentava câncer, hemodiálise e outros tratamentos de alta complexidade”, declarou o deputado à Folha do Estado.

Como a desativação da Santa Casa foi revertida?

Inicialmente, em julho de 2025, o governador Mauro Mendes (União) havia confirmado que a Santa Casa encerraria suas atividades naquele ano, com a transferência de todos os serviços para os novos hospitais públicos. No entanto, em dezembro de 2025, o fechamento foi adiado para abril de 2026, conforme anunciado pelo secretário de Estado de Saúde, Gilberto Figueiredo, para garantir que o Hospital Central estivesse funcionando em sua totalidade. Em junho de 2025, Figueiredo já havia rebatido críticas, afirmando que “Nenhum serviço deixará de existir” e que a substituição pela estrutura do novo Hospital Central ampliaria a capacidade da rede pública, com a adição de 40 leitos de UTI. Ele também mencionou a possibilidade de a Santa Casa continuar operando caso alguma entidade, como o município de Cuiabá, assumisse a administração.

A reversão da desativação começou a se concretizar em agosto de 2025, quando, após articulações com o então governador Otaviano Pivetta e o ex-governador Mauro Mendes, Dr. João anunciou publicamente que a Santa Casa não seria fechada. O processo avançou em 2026. Em fevereiro, o Governo de Mato Grosso anunciou uma proposta para a compra do prédio da Santa Casa.

A aquisição definitiva da estrutura foi concluída por R$ 30 milhões, após acordo com credores e validação da Justiça do Trabalho (TRT-MT), que considerou a proposta do Governo apta e a estabeleceu como referência mínima para o processo. É importante notar que a venda envolveu apenas o imóvel, não incluindo equipamentos ou outros bens existentes no complexo hospitalar.

Qual o valor da Santa Casa de Cuiabá e as controvérsias?

Durante as discussões, o valor do imóvel da Santa Casa foi alvo de debates. Inicialmente avaliado em cerca de R$ 78 milhões, esse valor foi criticado. O presidente do Tribunal de Contas do Estado (TCE-MT), Sérgio Ricardo, afirmou que o complexo hospitalar teria valor de mercado entre R$ 20 milhões e R$ 25 milhões. O prefeito de Cuiabá, Abilio Brunini, também considerou o valor inicial superestimado e inviável para a Prefeitura, afirmando que só seria possível para o município abaixo de R$ 25 milhões, embora tenha manifestado interesse em dar um lance de R$ 30 milhões.

Além da oferta do governo, em março de 2026, existiam outras duas propostas de compra por instituições privadas: o Instituto São Lucas, de São Paulo, que ofereceu R$ 20 milhões, e o Instituto Evangelístico São Marcos, também de São Paulo, que apresentou a maior proposta financeira de R$ 40 milhões. No entanto, a proposta do Estado por R$ 30 milhões foi a que prevaleceu, garantindo o controle público da unidade.

O prédio da Santa Casa, construído com adobe há mais de dois séculos, era considerado deficitário arquitetonicamente e não atendia a todos os requisitos do Ministério da Saúde para habilitar serviços. Além disso, o Estado desembolsava cerca de R$ 450 mil por mês apenas pela requisição administrativa do imóvel, somados a aproximadamente R$ 500 mil mensais com manutenção.

Apesar dos desafios estruturais e financeiros, a manutenção da unidade representou a preservação de serviços de saúde e de um patrimônio histórico da Capital. Em abril de 2026, o governador Otaviano Pivetta (Republicanos) declarou: “A Santa Casa é um patrimônio do povo cuiabano e vai continuar sendo. O Estado vai manter a operação, garantir os serviços essenciais e seguir trabalhando para melhorar a gestão e adequar a estrutura para atender melhor à população”.

Qual a relação da Santa Casa com a identidade cuiabana?

Para Dr. João, a história da instituição vai além da prestação de serviços hospitalares. Ele resgatou a relação histórica da unidade com a identidade cuiabana, especialmente em torno da expressão “de chapa e cruz”. Segundo o deputado, a expressão estaria relacionada ao antigo costume de identificar crianças nascidas na Santa Casa. “A expressão cuiabana 'de chapa e cruz' é diferente do que muitos pensam. Na verdade, ela é feita para pessoas que nasceram na Santa Casa de Cuiabá. Quando as crianças nasciam, era colocada uma placa metálica, daí vem o de chapa. Quem nascia na Santa Casa tinha na placa também uma cruz, já que a unidade era cuidada por freiras”, explicou o parlamentar à Folha do Estado.

“Hoje vemos que valeu a pena insistir. A Santa Casa permaneceu aberta, o Estado assumiu definitivamente a estrutura e os serviços essenciais foram preservados. Essa sempre foi nossa defesa: não deixar Cuiabá perder um hospital com tanta história e importância para a saúde pública”, destacou Dr. João. A Santa Casa faz parte da memória de Cuiabá, assim como outros locais que marcam a história da cidade, como o Santuário e Local de Missa do Papa João Paulo II. Muitas famílias têm alguma história ligada àquele hospital, e sua preservação é, portanto, uma questão de saúde pública e de memória cultural para a capital mato-grossense.