A Polícia Civil de Mato Grosso deflagrou, na manhã desta quinta-feira, 15 de outubro de 2026, a Operação Legado, um novo capítulo na investigação de um suposto esquema de desvio de recursos públicos e lavagem de dinheiro na Prefeitura de Nossa Senhora do Livramento, município a cerca de 39 quilômetros de Cuiabá. A ação mira cinco pessoas físicas e uma empresa, incluindo uma ex-secretária municipal e empresários, em um complexo enredo que envolve movimentações financeiras superiores a R$ 90 milhões nas contas dos investigados durante a gestão municipal anterior.
As apurações, conduzidas pela Delegacia Especializada de Combate à Corrupção (Deccor), buscam desvendar crimes como peculato, corrupção passiva e organização criminosa. Entre as irregularidades mais chocantes, a investigação revelou transações bancárias em uma conta de uma pessoa que já havia falecido na época em que os valores eram movimentados, levantando sérias questões sobre a engenhosidade do esquema e a facilidade com que recursos públicos poderiam ter sido desviados na região do Centro-Oeste mato-grossense.
O que a Operação Legado investiga em Nossa Senhora do Livramento?
A Operação Legado concentra-se em suspeitas de desvio e uso irregular de bens públicos, além de irregularidades na execução de dois contratos específicos da Prefeitura de Nossa Senhora do Livramento. O primeiro contrato sob escrutínio foi firmado com um posto de combustíveis, responsável pelo abastecimento da frota de veículos oficiais do município. O segundo envolve uma construtora, contratada para a reforma de pontes de madeira na localidade.
A Polícia Civil aponta que o dinheiro supostamente desviado teria percorrido um caminho intrincado. A pessoa falecida cuja conta foi utilizada nas movimentações era mãe do proprietário do posto de combustíveis e avó da proprietária da construtora. A investigação revelou que a construtora teria recebido valores de forma atípica diretamente do posto de combustíveis, sugerindo uma triangulação para ocultar a origem e o destino dos recursos ilícitos.
Este tipo de esquema, que utiliza contratos essenciais para a infraestrutura e serviços básicos de um município, tem um impacto direto e severo na população. Em cidades como Nossa Senhora do Livramento, a má gestão de recursos destinados a pontes e abastecimento de veículos oficiais pode significar estradas precárias, dificultando o escoamento da produção agrícola e o acesso a serviços de saúde e educação, além de comprometer a eficiência da própria administração municipal.
Qual a dimensão financeira do esquema sob apuração?
Um dos dados mais impressionantes revelados pela Operação Legado é a identificação de movimentações bancárias que ultrapassam os R$ 90 milhões nas contas dos alvos durante o período investigado. É importante ressaltar que esse valor representa o volume total de transações identificadas, e não necessariamente a quantia exata desviada dos cofres públicos, que ainda está sendo apurada. No entanto, a magnitude desses valores já indica a complexidade e a extensão do suposto esquema.
Para o Centro-Oeste, onde a fiscalização e a transparência são temas recorrentes, a cifra de R$ 90 milhões em movimentações atípicas em um município de porte médio como Nossa Senhora do Livramento acende um alerta. Isso demonstra a sofisticação que os esquemas de corrupção podem atingir, utilizando-se de laranjas e até mesmo de contas de pessoas falecidas para tentar mascarar a origem e o destino do dinheiro.
Quais as medidas judiciais tomadas contra os investigados?
A Justiça, a pedido da Polícia Civil, expediu um total de 30 ordens judiciais para a Operação Legado. Entre elas, destacam-se sete mandados de busca e apreensão, cumpridos para recolher materiais e provas que possam corroborar as investigações. Além disso, foram emitidas seis ordens de acesso a dados armazenados em dispositivos móveis, como celulares, que podem conter informações cruciais sobre as comunicações e o planejamento do esquema.
As medidas cautelares financeiras foram robustas. Foi determinado o bloqueio inicial de R$ 15,8 milhões em contas bancárias de pessoas físicas e jurídicas envolvidas. Adicionalmente, a Justiça ordenou o sequestro de bens, incluindo dois carros, uma motocicleta e um caminhão, visando garantir a reparação dos danos aos cofres públicos caso as acusações sejam confirmadas. A empresa investigada também foi proibida de participar de licitações e de firmar novos contratos com o poder público, especialmente com a Prefeitura de Nossa Senhora do Livramento, uma medida essencial para coibir a continuidade de possíveis desvios.
Ainda, foram expedidas ordens às instituições financeiras para impedir a reativação ou o uso indevido da conta bancária da pessoa falecida, inclusive por terceiros que pudessem ter poderes de representação. Essa medida visa selar uma das principais brechas identificadas no esquema.
Como a Operação Legado se conecta a outras ações?
A Operação Legado não é um evento isolado, mas sim um desdobramento da Operação Liberatio, deflagrada em 2024 pelo Ministério Público de Mato Grosso (MPMT). Naquela ocasião, as investigações tiveram como alvos o então prefeito de Nossa Senhora do Livramento e alguns secretários municipais, indicando que a corrupção na administração pública do município já estava sob o radar das autoridades há algum tempo.
Essa continuidade das investigações, com a Legado aprofundando o núcleo financeiro do suposto esquema, demonstra a persistência das forças de segurança e do Ministério Público no combate à corrupção em Mato Grosso. A colaboração entre diferentes órgãos e a sucessão de operações são cruciais para desmantelar redes criminosas complexas que se instalam nas administrações públicas, um problema que afeta diversas cidades do Centro-Oeste. A persistência em desvendar tais crimes é um sinal de que as instituições estão atentas e buscam responsabilizar os envolvidos, independentemente do tempo que levem as apurações.
Casos como este ecoam em todo o Centro-Oeste, onde a fiscalização de contratos públicos é uma pauta constante.
O que isso significa para o Centro-Oeste e Mato Grosso?
Para os cidadãos de Mato Grosso e, em especial, de Nossa Senhora do Livramento, a Operação Legado representa um esforço contínuo para restaurar a integridade na gestão pública. A revelação de um esquema que movimentou R$ 90 milhões e envolveu a utilização de contas de pessoas falecidas abala a confiança nas instituições, mas a ação policial e judicial serve como um lembrete de que a impunidade não prevalecerá.
A região Centro-Oeste, com sua crescente economia e desafios sociais, depende de uma administração pública transparente e eficiente. Desvios de recursos, como os investigados, drenam verbas que poderiam ser aplicadas em saúde, educação, infraestrutura e segurança, impactando diretamente a qualidade de vida da população. A atuação da Polícia Civil e do Ministério Público em operações como a Legado é fundamental para inibir novas práticas corruptas e garantir que o dinheiro público seja, de fato, utilizado em benefício da sociedade.
A transparência e a fiscalização cidadã são ferramentas poderosas para combater a corrupção. A acompanhar de perto os gastos públicos e exigir respostas das autoridades são atitudes que fortalecem a democracia e ajudam a construir um futuro com mais ética e responsabilidade na gestão dos recursos que pertencem a todos.