Um alerta global da Organização das Nações Unidas (ONU) foi divulgado nesta quarta-feira (21) em Genebra, Suíça. Ele indica que o El Niño pode atingir o pico no final de 2026, tornando-se um evento climático de intensidade “sem precedentes”. Projeções preveem anomalias de temperatura da superfície do mar no Pacífico tropical de até 3,8°C acima da média entre novembro de 2026 e janeiro de 2027. Este é um nível nunca antes registrado. Para o Centro-Oeste do Brasil, a intensificação deste fenômeno trará temperaturas elevadas, secas e risco elevado de incêndios, especialmente no bioma Cerrado.
Impactos do El Niño no Centro-Oeste
Para o Centro-Oeste, as previsões de 2026 e 2027 indicam temperaturas acima da média histórica. A região, que já enfrentou desafios climáticos severos, deve se preparar para secas prolongadas. O período crítico de incêndios e impactos em áreas agrícolas, geralmente de julho a outubro, pode ser intensificado.
O Instituto Nacional de Meteorologia (INMET) e parceiros recomendam acompanhar as condições meteorológicas, hidrológicas e geológicas. A população deve manter o cadastro para alertas da Defesa Civil atualizado. É importante conhecer áreas de risco e rotas de fuga, além de adotar medidas de autoproteção. O uso maior de refrigeração em períodos de calor intenso também pode aumentar o consumo de energia na região.
Um fenômeno 'fora das escalas de monitoramento'
A secretária-geral da Organização Meteorológica Mundial (OMM), Celeste Saulo, afirmou em coletiva de imprensa que o El Niño atingirá o pico no final de 2026. Seus impactos, contudo, serão sentidos por muito tempo depois. Ela descreveu a intensidade como “sem precedentes”. Saulo ressaltou que as temperaturas esperadas “se situariam literalmente fora das escalas de seguimento que temos utilizado durante as últimas quatro décadas”. Ela enfatizou que “nunca registramos um valor de 3,8 no passado”. Isso “nos salimos del marco de nuestros registros e estatísticas habituais sobre o que podemos esperar”.
Anomalias de Temperatura da Superfície do Mar no Pacífico
A Atualização Global do Clima Sazonal mais recente prevê que as temperaturas da superfície do mar no Pacífico tropical, epicentro do El Niño, podem subir para 3,8°C acima da média. Isso ocorrerá entre novembro de 2026 e janeiro de 2027. A NOAA (National Oceanic and Atmospheric Administration) indica uma probabilidade de 83% de um El Niño de força histórica entre outubro e dezembro de 2026. O Instituto Internacional de Pesquisa para o Clima e a Sociedade (IRI) registrou que o índice semanal Niño 3.4 atingiu +3,3°C em 14 de outubro de 2026. O valor mensal de setembro subiu para +2,84°C.
“Este episódio de El Niño é um fenômeno colossal. É uma verdadeira força destrutiva. Ele vai atingir em cheio a América Latina, África oriental e austral, Ásia e a região do Pacífico”, alertou Tom Fletcher, subsecretário-geral da ONU para Assuntos Humanitários, durante a coletiva. Ele prevê “consequências humanitárias de grande escala”. Isso inclui calor extremo, secas e inundações em várias partes do mundo. Tais eventos podem aumentar a insegurança alimentar para até 50 milhões de pessoas globalmente. Fletcher também mencionou que os danos não se restringirão aos países na trajetória imediata do fenômeno. Eles podem gerar choques na economia global e impulsionar novos conflitos, deslocamentos populacionais e migrações.”
O Ocha (Escritório da ONU para Coordenação de Assuntos Humanitários) liberou mais de US$ 50 milhões do Fundo Central de Resposta a Emergências. O objetivo é ajudar 11 países na linha de frente, incluindo Chade, El Salvador, Etiópia, Somália e Sudão do Sul. A ONU pediu ação “antecipada” para proteger as pessoas mais expostas. Solicitou que países, bancos de desenvolvimento e instituições financeiras liberem financiamento “antes que os danos ocorram, e não depois”.
Anomalias de temperatura da superfície do mar no Pacífico
| Evento \/ Período | Anomalia (°C acima da média) |
|---|---|
| El Niño 2015-2016 (pico) | 2.6 |
| Niño 3.4 (14 de outubro de 2026) | 3.3 |
| Previsão Nov 2026-Jan 2027 | 3.8 |
Histórico do El Niño no Centro-Oeste
O Centro-Oeste já sentiu os efeitos de El Niños anteriores. O El Niño de 2023-2024 foi declarado em junho/julho de 2023. Ele é considerado um dos cinco mais intensos já registrados. Este fenômeno trouxe chuvas irregulares, temperaturas elevadas e alta probabilidade de ondas de calor para a região, especialmente em Mato Grosso. O Distrito Federal, por exemplo, enfrentou um período de 167 dias sem chuvas significativas entre abril e outubro de 2024.
Em 2024, o Pantanal, que abrange partes do Centro-Oeste, sofreu incêndios florestais de extensão sem precedentes. Este foi um impacto direto da seca e do calor intensificados pelo El Niño. A fumaça das queimadas na Amazônia, que também enfrentou estiagem severa e queimadas, afetou a qualidade do ar em Manaus. Concentrações de partículas finas foram classificadas como “muito ruim” pela Defesa Civil municipal em outubro de 2026.
O El Niño de 2015-2016 foi o mais intenso em termos de aquecimento global nos últimos anos. As águas do Pacífico equatorial atingiram cerca de 2,6°C acima da média. Isso causou seca severa na região Norte e afetou a safra agrícola no Matopiba, que abrange partes do Centro-Oeste.
A intensidade de um El Niño não é o único fator a determinar a gravidade de suas consequências. Outros fatores climáticos, como as condições nos oceanos Índico e Atlântico, também influenciam os efeitos regionais. Esse fenômeno natural retorna a cada dois a sete anos. Ele soma-se às mudanças climáticas causadas por atividades humanas, que já potencializam eventos meteorológicos extremos.
Com o pico do El Niño iminente, a prioridade é fornecer informações comprovadas. Isso ajuda governos e organizações humanitárias a antecipar riscos, preparar operações e proteger populações vulneráveis. Condições climáticas extremas não precisam se traduzir em emergências humanitárias ou vítimas se medidas preventivas forem tomadas a tempo.