Iury Moraes alcançou um marco histórico na educação brasileira ao se tornar o primeiro mestre surdocego da Universidade de Brasília (UnB). Em 21 de setembro, ele defendeu com sucesso seu mestrado em Educação – Modalidade Profissional, consolidando um feito pioneiro que inspira a inclusão e a acessibilidade na educação superior do Distrito Federal e de todo o Centro-Oeste.

A trajetória acadêmica de Iury na UnB começou em 2016, quando ingressou no curso de Língua de Sinais Brasileira – Português. Quatro anos depois, em 2020, ele concluiu a graduação, com a colação de grau realizada por videoconferência devido à pandemia de covid-19, e em Língua Brasileira de Sinais (Libras). Em 2022, Iury deu mais um passo significativo ao iniciar seu mestrado, culminando agora na defesa de sua dissertação.

Desde a infância, Iury Moraes enfrentou desafios consideráveis. Nascido com catarata e surdez profunda congênita, ele superou barreiras de comunicação e acessibilidade. Durante a graduação, perdeu a visão residual, o que o levou a adotar a Libras tátil como sua principal forma de comunicação. Sua jornada é um testemunho de resiliência e da busca incessante por qualificação e reconhecimento.

Qual a importância da pesquisa de Iury Moraes para a inclusão?

Intitulada “O saber na experiência do trabalho com pessoa surdocega: uma escrita autobiográfica”, a pesquisa de Iury Moraes é um trabalho de grande relevância. Ela se destaca por reconhecer o surdocego como sujeito da ciência, partindo da própria experiência do estudante para explorar percursos, práticas e conhecimentos construídos na atuação junto a este público. A dissertação é um estudo que amplia o debate acadêmico sobre acessibilidade e a presença de pessoas com deficiência na produção de saberes.

A pesquisa de Iury não é apenas um trabalho acadêmico; é uma voz potente que valida a experiência da pessoa surdocega como fonte legítima de conhecimento e ciência. Ao documentar e analisar sua própria vivência e a de outros, ele contribui para desmistificar a surdocegueira e promover uma compreensão mais profunda das necessidades e capacidades desse grupo, essencial para a construção de uma sociedade mais inclusiva no Centro-Oeste e no Brasil.

Como a UnB garantiu a acessibilidade na defesa do mestrado?

A defesa do mestrado de Iury Moraes ocorreu na sala Papirus da Faculdade de Educação (FE), em um ambiente de celebração e apoio, com a presença de colegas, professores e familiares. Para garantir a plena participação de todos, a UnB implementou uma logística de acessibilidade meticulosamente planejada. Oito profissionais da Diretoria de Acessibilidade (Daces/DAC/UnB), que acompanharam Iury ao longo de sua trajetória, atuaram para atender às diversas necessidades, incluindo a comunicação com pessoas surdocegas com campo visual reduzido e com o público surdo.

Durante sua apresentação, Iury permaneceu em pé para sinalizar, enquanto sua mãe, Elem Regina, traduzia os sinais para o português oral. Sua orientadora, a professora da FE Liège Gemelli Kuchenbecker, o informava sobre a ordem dos slides. Já na fase de arguição pelos avaliadores, Iury foi acompanhado por intérpretes de Libras tátil, que se revezavam para transmitir as informações diretamente a ele, garantindo que pudesse compreender e responder a todas as perguntas.

Um momento particularmente marcante foi a participação do professor José Carlos de Oliveira, da Universidade Federal de Uberlândia (UFU), que também é surdocego. Ele fez questão de dirigir suas perguntas diretamente a Iury, utilizando a Libras tátil, o que demonstrou uma profunda conexão e respeito entre os dois acadêmicos.

Qual o impacto da conquista de Iury para a região Centro-Oeste?

A conquista de Iury Moraes na UnB ressoa profundamente em todo o Centro-Oeste, servindo como um farol de esperança e um modelo a ser seguido por outras instituições de ensino superior em Goiás, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul. Em um cenário onde a inclusão de pessoas com deficiência ainda enfrenta desafios significativos, a trajetória de Iury demonstra a viabilidade e a importância de investimentos em acessibilidade e apoio pedagógico especializado. Universidades como a Universidade Federal de Goiás (UFG), a Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT) e a Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS) podem se inspirar nas estratégias adotadas pela UnB para aprimorar seus próprios programas de inclusão.

Este feito não apenas celebra a capacidade individual de Iury, mas também impulsiona o debate sobre a necessidade de políticas públicas mais robustas e recursos adequados para garantir que a educação superior seja verdadeiramente acessível a todos os cidadãos da região. A experiência da UnB com Iury, desde seu ingresso na graduação até a conclusão do mestrado, oferece um valioso estudo de caso sobre como adaptar ambientes acadêmicos para atender às necessidades de estudantes surdocegos, promovendo uma cultura de equidade e respeito à diversidade que pode ser replicada em todo o Centro-Oeste.

A mãe de Iury, Elem Regina, que traduziu toda a dissertação para o português escrito e acompanhou de perto a trajetória acadêmica do filho, expressou o aprendizado mútuo nesse processo. “A gente aprendeu muito com ele. Ele aprendeu muito com tudo isso, aprendeu muito com a UnB. A UnB aprendeu com o Iury”, disse Elem, ao portal UnB Notícias.

Apesar da grande conquista, os planos de Iury no campo da formação profissional não se encerram aqui. “Eu quero fazer o doutorado. Eu faço a leitura, eu sonho. Essa equidade eu gostaria que todos tivessem”, afirmou o egresso, demonstrando seu compromisso contínuo com a educação e a promoção de uma sociedade mais justa e igualitária.

A história de Iury Moraes é um testemunho inspirador de que, com determinação e apoio adequado, as barreiras podem ser superadas, e o conhecimento pode se tornar acessível a todos, enriquecendo a academia e a sociedade como um todo no Centro-Oeste e no Brasil.